Heranas da ditadura

Carlos Chagas

Assustada, propriamente, a mdia no acordou, diante de mais uma agresso do presidente Lula s suas atividades. Dessa vez o primeiro-companheiro afirmou no haver mais formadores de opinio, porque se antes os meios de comunicao decidiam, hoje no decidem mais. Para ele, o povo tem pensamento prprio, anda pelas suas pernas.

Com todo o respeito, o que sustentamos ns, da Escola da Humildade, h muito tempo. A imprensa no forma, como apregoam certos veculos e certos coleguinhas de nariz em p, arrogantes e presunosos. Cabe-nos informar, j que quem se forma a prpria sociedade, desde que bem informada sobre tudo o que se passa nela. Acresce que o povo nunca andou e jamais precisou de muletas, apesar de deixar-se enganar de quando em quando, mas sempre por pouco tempo.

Fica evidente a m-vontade do presidente Lula diante da mdia. Prevalece nele a mesma concepo dos governantes totalitrios, de que a imprensa existe para exalt-los, e s suas obras. Alm de insistir na negativa da razo de ser da imprensa, que noticiar o inusitado, o diferente, aquilo que chama a ateno. As ditas notcias ms tem prevalncia sobre as notcias boas, no obstante os espaos a estas dedicados. o mesmo que pensavam, e impunham atravs da censura, os governos militares. Um general certo dia indagou-me porque os jornais divulgavam o atraso de uns poucos avies e ignoravam que a maioria dos vos saa e chegava na hora. Para no constrang-lo pela referncia de que seria ridcula uma manchete informando estarem as aeronaves no horrio, citei outro exemplo: se um cachorro morde um homem, no notcia, mas se um homem morde um cachorro, a publicao ser obrigatria.

De qualquer forma, a analisar est o fato de que o presidente da Repblica parece afetado pela mesma epidemia que assola as ditaduras: informaes, s a favor…

Ditaduras a favor e contra

Manda-se o selecionado brasileiro de futebol para o emirado de Om, cuja capital, lembramos agora, chama-se Mascate. A CBF atendeu pedido do governo Lula para uma exibio de nossos craques naquele pas, dia 17 de novembro, quando enfrentaremos o time da Inglaterra.

Nenhuma voz levantou-se no Congresso, na imprensa neoliberal, nos meios intelectuais, nos sindicatos e no prprio PT, para protestar contra a reverncia que faremos a uma das mais antigas ditaduras do planeta. Um dos motivos do priplo da seleo ser comemorar os 69 anos de idade do sulto local, h trinta no poder. O problema que Om tem petrleo aos montes, de onde importamos razovel produo, para felicidade e maior faturamento da Petrobrs.

Coisa parecida acontece nos cinco continentes. Os Estados Unidos mobilizaram suas foras armadas para acabar com a ditadura de Saddam Hussein e tentar instaurar a democracia no Iraque. Mas do de ombros para ditadura igualmente cruel instalada ali pertinho, na Arbia Saudita, onde famlias de sheiks exploram a populao quase que desde os tempos de Maom. Trata-se de uma ditadura a favor, pelos mesmo motivos da explorao do petrleo que levaram os marines ao Iraque.

Melhor fariam os senadores que quase impediram a entrada da Venezuela no Mercosul se tivessem protestado contra a exibio do nosso futebol numa terra onde no h liberdade de imprensa, ningum vota e um sulto permanece no poder indefinidamente, nem precisando reeleger-se, como parece que far Hugo Chavez.

Em considerao aos colegas

Quinta-feira, nas sesses matutinas da Cmara e do Senado, assistimos fenmeno inusitado. No incio de seus discursos todos os oradores, sem exceo, dirigiam-se aos plenrios como se estivessem pedindo desculpas, afirmando que seriam breves, como foram, em considerao aos colegas prontos para viajar a seus estados no comeo da tarde. Com isso, sacrificaram o contedo e a qualidade de seus pronunciamentos.

O problema que as quintas-feiras so dias de trabalho normal no Congresso. Tambm as sextas-feiras, e por que no os sbados? Alm de ser Braslia o domiclio de Suas Excelncias. Tudo por conta do feriado da prxima segunda-feira? Parece que no, porque toda semana a mesma coisa.

por essas e outras que o senador Pedro Simon jamais ser escolhido presidente do Senado e do Congresso. Para ele, s os domingos seriam dia de interrupo dos trabalhos…

Por que no na Amaznia ou em Trindade?

No falta razo aos governadores que protestam contra a existncia e os planos do Braslia para implantao de mais presdios federais em seus estados, destinados a abrigar bandidos de alta periculosidade. Ainda mais quando esses estabelecimentos so construdos prximo de regies populosas ou at em capitais, como Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. A presena e a ao ilegal dos chefes do crime organizado serve para intranqilizar as populaes, desvalorizar propriedades e mobilizar recursos estaduais na periferia das cadeias federais.

Muita gente pergunta porque os governos Fernando Henrique e Lula ignoraram a hiptese de levar os presdios para regies inspitas, onde condenados disporiam de menores chances para continuar comandando o trfico, a violncia, o contrabando e sucedneos. Por que no no fundo da Amaznia ou na Ilha de Trindade? No mais recndito da caatinga ou no isolamento do Pantanal?

Alega-se a proteo dos direitos humanos, quer dizer, os animais precisam continuar recebendo visitas ntimas, advogados e familiares, beneficiando-se rapidamente dos recursos e das redues de pena que os devolvem sociedade para de novo estupr-la. O que dizer dos direitos humanos de quantos encontram-se do lado de c das grades?

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