Herói assassino

Sebastião Nery

SALVADOR – Em 1979, o deputado Frederico Trota, do MDB da Guanabara, foi convidado a ir à Líbia do coronel Kadafi. Chamou o companheiro de partido Edson Khair para irem juntos. Nas vésperas da viagem, Kadafi mandou todos os estrangeiros abandonarem o país. O velho Trota desistiu e indicou o deputado Mário Saladini para ir em seu lugar.

Lá se foram Saladini e Khair, Rio, Paris, Trípoli. Mal desceram no aeroporto de Trípoli, enquanto esperavam a bagagem, Saladini, garganta seca ante o deserto ali perto, pediu um uísque no bar. O garçon, solicito:

– Na Líbia é proibido servir bebida alcoólica.Somos um país islamita.

– Pois eu nunca passei 24 horas sem tomar um uísque.

Saladini não saiu sequer do aeroporto. Deixou Khair lá, pegou um avião e voltou para Paris. Um pais sem álcool é um pais inviavel.

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TRIPOLI  

Em agosto de 1989, meus amigos Eliana e Brasil Helou, presidente da Fearab (Federação das Entidades Árabes no Brasil), me convidaram para o “Congresso do Mundo Árabe” em Trípoli, na Líbia.

Brasileiros de vários Estados. De São Paulo, os deputados Aldo Rebelo, Samir Achoa, Ricardo Izar e Maluly Neto. Do Rio Grande do Sul, o deputado Amaury Muller e sua islamita Samira. Do Amazonas, a deputada Bete Azize. De Alagoas, o deputado Alberico Cordeiro. De Brasília, os jornalistas Jorge Jardim e Celina, Silvestre Gorgulho e Regina, e eu.

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LIBIA

A Líbia é um misterioso pedaço do outro mundo. Numerosas tribos andarilhas de beduinos negros caminhando no deserto escaldado, com seus camelos tortos e vivendoem acampamentos. Tinham apenas o deserto amarelo e abrasado, os camelos de lombo duplo e o horizonte sem fim.       

Nos romances e filmes sobre os tempos de Cristo, como “Ben Hur”, “Barrabás”, havia sempre soldados líbios prisioneiros, grandes e luzidios negros fortes, gladiadores que lutavam até o ultimo instante, valentes e enormes, que acabavam sangrados, nas farras oficiais dos Césares.

Os gregos ocuparam. Depois, egípcios, romanos, turcos,  otomanos. Há ruínas e restos surpreendentes de civilizações, como a cidade romana de Lepsis, bem preservada. E chegaram alemães, italianos. Em 1936 Mussolini pôs 400 mil soldados para dominarem 800 mil habitantes. Não conseguiu.

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EUA

Depois da 2ª Guerra, em 1951, ingleses e americanos puseram lá um rei de mentira, Idris I, para explorarem o país. Em61, aEsso descobriu petróleo. Um povo miserável sentado em cima de uma riqueza fantastica.

Não podia dar certo. Os jovens tenentes da Academia Militar de Bengazi criaram o grupo “Oficiais Unionistas Livres” para tomarem conta de sua terra e seu povo, depois de três mil anos de ocupação e escravidão. Eram quase meninos liderados por um jovem tenente de 27 anos, Kadafi, que estudou 2 anos em Londres.O projeto era expulsar os invasores que mandavam no rei e tinham forças militares poderosas, com aviões ultra-modernos e a maior base norte-americana fora dos Estados Unidos.

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KADAFI

Em 1º de setembro de 1969, os tenentes de Alá desencadearam a “Operação Jerusalém”, derrubaram o rei, expulsaram os americanos, ingleses, italianos, fecharam a base americana, nacionalizaram os bancos e empresas estrangeiras, sob a liderança de um “Conselho do Comando Revolucionário”, dirigido por Kadafi e mais onze, todos mais jovens que ele.

Era a “Revolução do Al Fatah”, sob a inspiração do herói nacional Omar Al-Moukhtar, que em 1936 foi fuzilado por resistir à invasão de Mussolini, lutando “pela Libia, pelo Arabismo e pelo Islã”. Em 1969, ninguém foi fuzilado ou enforcado. Todos os estrangeiros expulsos do país.  

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O “BUNKER”

Fui ver a casa de Kadafi, no centro de Trípoli. Disseram que era uma casa comum, em um bairro popular. Mentira. De fato, uma fortaleza, em um bairro popular. Um enorme quarteirão, cercado de muros altos, sistema de defesa completo, TV e foguetes para defesa. Dentro, casas onde vive a guarda com suas famílias, roupas nas varandas. E o “bunker” de Kadafi no centro. Três andares ligados por escadarias e elevador, varios quartos, a suite dele, imensa, escritórios. Vivia lá com a mulher e oito filhos.

Uma noite, dezenas de aviões americanos mergulharam sobre a casa e bombardearam. Se estivesse em casa teria morrido. Os tiros atingiram sobretudo os quartos, as salas, arrasando tudo. Um caça americano foi derrubado no quintal, outros perto do mar. Kadafi não estava. Ou estava no subsolo, com a família. A menina Ana, de dois anos, morreu, no quarto. A mãe, na cozinha, salvou-se. Hoje Kadafi vive em um “bunker” no deserto.

Agora, 42 anos depois, o herói da libertação da Líbia em 69 tornara-se um ditador corrupto, histérico,  genocida, assassino de seu povo.  

 

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