História de um subalterno

Sebastião Nery

Este era até bem pouco um inédito documento histórico: – “Às 22 horas, Bê (Baldomero Barbará), meu genro, chegou de Belo Horizonte. Transmitiu-me a conversa que tivera com Alkmim (José Maria) e os propósitos do governo de Minas (Israel Pinheiro) de não aceitar o esbulho do vice-presidente Pedro Aleixo. Nesse sentido, Alkmim e Israel haviam conversado com o Pedro Aleixo, de Belo Horizonte para Brasília, o mesmo tendo feito Milton Campos a pedido dos dois primeiros”.

“ O vice-presidente (Pedro Aleixo) disse que tinha sido convocado para uma reunião no Rio e eles lhe pediram que passasse por Belo Horizonte a fim de conversarem. Pedro não atendeu e veio direto para o Rio. O problema dependia todo da atitude que o vice-presidente adotasse. Se ele quisesse topar a luta, acredito que o movimento seria vitorioso. Querendo seguir para Belo Horizonte, naquele momento mesmo, em companhia de Calcado, numa caminhonete Chevrolet, eu precisava, porém, conhecer antes o ponto de vista de Pedro Aleixo”.

“Bê e Rodrigo (Lopes) meus genros, foram ao apartamento de sua filha Heloisa, onde ele estava hospedado, e lá lhe entregaram uma carta do próprio punho, que eu acabara de escrever. Depois de terminada a leitura, Pedro Aleixo voltou-se para os meus genros e lhes disse que agradecia muito as minhas palavras”.

RODRIGO  LOPES

Essas são anotações, do próprio punho, de Juscelino Kubitschek, agora publicadas em um pequeno grande livro, enorme livro,do engenheiro, empresário, hoje chefe do Escritório  do Governo de Minas no Rio, Rodrigo Lopes, filho de Lucas Lopes, autor do Plano de Metas do Governo JK: –  “Memórias, Historias, Pensamentos e Lorotas” (Editora Mauad-RJ), :

-“Pensei em escrever  a minha descrição dos fatos, mas fui surpreendido ao descobrir, nos documentos do presidente Juscelino, uma descrição detalhada dos acontecimentos daquele dia.”

O livro tem fascinantes documentos inéditos, como cartas de Lacerda a JK e perfis brilhantes de Benedito, Israel, Janio, Brizola, Lacerda, outros.

E mais: um belo e terno prefácio da Maria Estela Lopes, filha de Juscelino.

PEDRO ALEIXO

Rodrigo Lopes não deixou de dar seu indignado testemunho: – “Quando Bê e eu chegamos naquela noite à casa de Heloisa, fomos recebidos pelo Sr. Pedro Aleixo, que nos perguntou se o apartamento estava todo vigiado. Respondi-lhe que as ruas estavam desertas, sem ninguém o vigiando. Na Barata Ribeiro não havia nem ônibus na rua àquela hora. Isso me bastou para sentir o quanto ele estava amedrontado”.

– “Anos mais tarde, Heloisa me procurou perguntando se tinha uma cópia da carta do presidente Juscelino para o seu pai.Infelizmente, ainda não havia encontrado nada. Ela me contou que o seu pai, assim que nós saímos, queimara a carta no banheiro, sem permitir eu ninguém a lesse”.

CARTA DE JK

– “Anos depois encontrei o texto que transcrevi acima”. (Do qual republico aqui apenas um mínimo trecho – SN). “E encontrei um rascunho da carta de próprio punho do presidente Juscelino, a qual dizia o seguinte”:

– “Meu caro Pedro,

“Acho que chegamos à encruzilhada. Ou prosseguimos sob sua Presidência, para a normalização da vida constitucional do Brasil, ou teremos ainda um longo percurso de sombra. O meu genro chegou de Minas, onde pedi que ele fosse para conversar com os nossos amigos. Encontrou da parte deles disposição de irem até o fim. Considero que o Destino colocou em suas mãos a chave de uma situação que poderá nos abrir os caminhos da liberdade. Estou preso. Fugirei essa noite ou amanhã para Minas para colocar-me na vanguarda do movimento que lhe entregará o Governo do Brasil. Creio que Minas e o Brasil se levantarão com você. Estou farto de violências. O que me resta da faixa de vida ponho a serviço da causa representada por você. Ao menor aceno de sua parte irei para Minas. Pelo que sinto e pelo que me informaram de lá, você passará a ostentar as velhas legendas da Liberdade de que tanto Minas se orgulha.

Um abraço afetuoso.

Juscelino”.

SUBALTERNO

Conclusão de Rodrigo Lopes: – “ O Sr. Pedro Aleixo deixou de figurar no panteão dos heróis nacionais para se contentar em ser um subalterno de uma revolução que tanto mal fez ao Brasil e aos brasileiros”.

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4 thoughts on “História de um subalterno

  1. Sebastião Nery: custa-nos acreditar que Pedro Aleixo, advogado criminalista imortalizado na galeria dos mágicos da tribuna do Júri de todos os tempos e que tanto dignificou o Parlamento brasileiro, possa passar à história sob a desonra da subalternidade. Desconhecemos as razões determinantes de certas atitudes submetidas à sofreguidão de censuras. Homem que fulgurou em momentos culminantes de decisões políticas não merece o amesquinhamento da infâmia envolta — ao que nos parece — de inocultável má-vontade. Tenhamos mais comedimento ao julgá-lo para a posteridade. É uma imagem que não deve sofrer reducionismo emanado de meras antipatias ocasionais. Desconfiamos dessas mudanças repentinas. Um grande homem — de vida destacada pela inteligência, tradição de lutas e equilíbrio das ações — não se rebaixa tão rápido a vilão.
    Constata-se, doutro lado, que políticos de partidos adversários de outros estados dialogavam e se tratavam com urbanidade e respeito, como se vê na carta de Juscelino a Pedro Aleixo. Em Pernambuco, quando se encontravam Miguel Arrais e Marco Maciel havia clima de cordialidade entre os dois. Na Bahia, infelizmente foi instaurado o terror. Antônio Carlos Magalhães tratava os adversários como inimigos!

  2. O Vice-Presidente Dr. Pedro Aleixo era um Mineiro de muito bom-senso. Era da UDN. Apoiou como quase todo mundo a Revolução de 64. Era contra e não assinou em 13 Dez 1968 o AI-5, que revogava a Constituição de 1967, feita pela própria Revolução de 64. A ideia do Presidente Costa e Silva/Pedro Aleixo era, passada a crise, revogar o AI-5, e vigorar plenamente a Constituição de 67. O destino interveio e o Presid. Costa e Silva sofreu um forte derrame cerebral em 31 Ago 1969, que lhe impossibilitou o Governo, e do qual veio a falecer em Dez 1069 (70 anos). Ora, o Alto Comando da Revolução não ia empossar um Homem que era contra o AI-5, e empossou uma Junta Militar até realizar nova eleição. Tudo durou 90 dias e o eleito foi o Presidente Médici. Nesse ínterim, a Junta Militar fez um Golpe dentro da Revolução de 64, e incorporou permanentemente o AI-5 na Constituição de 67. Foi o que muitos Juristas chamam a Constituição de 1969. A Economia na época estava bombando, início do “Milagre Brasileiro”, as FFAAs estavam unidíssimas e não havia a mínima chance do Povo apoiar o Vice Dr. Pedro Aleixo, nem com cartas do preso, Presid. JK, do ex-preso Gov. Carlos Lacerda, do ex-preso grande Jornalista Hélio Fernandes… enfim de todos os velhos Líderes que apoiaram a Revolução de 64 e agora já estavam na Oposição. Nessa conjuntura, nem Minas Gerais se levantaria, nem ninguém. Abrs.

  3. Sr Bortolotto está correto. A Revolução de 1964 só ficou desgastada na segunda metade do Governo Figueiredo (1982/1983). Em 1969 o Regime Militar tinha total apoio da sociedade.Pedro Aleixo teve juízo de não entrar nesta aventura.

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