História de uma história

Sebastião Nery

Eram três amigos, Nestor, Mario e José, companheiros de praia e de bar. Faz muito tempo: 1895. Nestor de Barros, guarda-livros, Mario Espínola, estudante, e José Agostinho, auxiliar de escritório. Tomavam banho de mar no Flamengo, bebiam e comiam no velho Lamas, ainda no Largo do Machado.
Resolveram fundar um gremio da praia do Flamengo para disputar competições de regatas. Fizeram uma vaquinha com os amigos do bairro, compraram uma surrada baleeira, mandaram reformar.

Pronto o conserto, foram buscar. Na volta, um temporal, e a baleeira afundou. Não desanimaram. Compraram outra.

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FLAMENGO

E assim nasceu o Grupo de Regatas do Flamengo, em um domingo, 17 de novembro de 1895, data republicanamente mudada para 15 de novembro. Sede: praia do Flamengo, 22, um pardieiro. Cores: azul-celeste e ouro, em listras largas horizontais.

Só na Inglaterra havia tecidos com essas cores e as camisas, importadas, custavam caro e desbotavam. Em 1898, mudaram as cores para vermelho e preto. Deu sorte. Na primeira regata do Campeonato Náutico Brasileiro, primeira taça, com a baleeira e dois remos.  Em 1902, o Flamengo virou Clube de Regatas do Flamengo.

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SÃO PAULO

Leitores reclamam que nunca escrevo sobre futebol. Não é essa minha praia. Mas como meu Flamengo está fazendo bonito no Brasileirão, conto sua historia, resumida.

Um ano antes de o Flamengo nascer, em 1894, havia nascido em São Paulo o futebol brasileiro. Um paulista filho de inglês, Charles Miller, trouxe da Europa varias bolas de futebol, reuniu amigos e começaram a jogar lá. Em 1897, o carioca Oscar Cox também trouxe bolas da Europa e o futebol chegava ao Rio.

Mas foi no Rio, em 12 de julho de 1902, que nasceu o primeiro clube de futebol do Brasil, o Rio Foot-Ball Club, fundado por João Ferreira. Logo o Oscar Cox fundou o Fluminense Foot-Ball Club. Em 1904, vieram o Botafogo Foot-Ball Club, o The Bangu Atletic Club e o América Foot-Ball Club. E o Paissandu Cricket e o Rio Cricket de Niterói.

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FLUMINENSE

Em 1911, como Eva da costela de Adão, o futebol do Flamengo nascia de uma crise no Fluminense, cuja “comissão de campo” (“ground commitee”) havia barrado o center-forward Alberto Borgerth.

Os jogadores, solidários com Borgerth, se rebelaram, nove deles saíram do clube e, com Borgherth, foram para o Flamengo, onde, em 8 de novembro, criaram uma equipe de futebol, afinal registrada na Liga em 9 de janeiro de 1912.

A primeira partida oficial foi em 3 de maio de 1912, contra o Esporte Clube Mangueira,formado por operários da fabrica de chapéus Mangueira. O Flamengo ganhou por 16 a 2. Time: Baena, Pindaro e Nery, Lawrence, Gilbert e Galo, Baiano, Arnaldo, Amarante, Gustavo e Borgherth.

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ESTUDANTES

Já no primeiro campeonato, em 1912, o Flamengo foi vice-campeão (campeão, o Payssandu) e Borgherth o artilheiro. Em 1914, terceiro ano de vida, campeão carioca. Em 1915, bicampeão.

Como o futebol ainda era um esporte de elite, dos 11 campeões de 1914, 9 eram estudantes de Medicina, um de Direito e apenas um não estudava para nada. Mesmo assim, já em 1915, o Flamengo e Botafogo, disputando o campeonato, levaram 15 mil espectadores, uma multidão, ao estádio de General Severiano.

Em 1916, o jornalista e teatrólogo Paulo Magalhães compôs o hino rubro-negro, oficializado em 1920: “Flamengo, Flamengo, tua gloria é lutar! Flamengo, Flamengo, campeão de terra e mar”!

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VASCO

Em 1916, surgiu uma revolução no futebol carioca: o Vasco da Gama Clube de Regatas, que praticava remo desde 1898, começou a jogar futebol e foi o primeiro clube do Rio a admitir jogadores negros (e não o Flamengo, como se poderia imaginar hoje). Eram empregados de portugueses torcedores do clube, na maioria pretos e mulatos.

Por racismo ou não, todas as torcidas se uniam contra os vascaínos, e a imprensa punha fogo: era o Brasil contra Portugal. Em 8 de julho de 1923, Flamengo e Vasco levaram 25 mil torcedores ao estádio do Fluminense.O Flamengo ganhou de 2 a 1.Acabado o jogo,veio a pancadaria na cabeça dos portugueses. Mesmo assim, o Vasco foi obrigado a pagar os estragos. Apesar de novato na Liga, o Vasco venceu o campeonato.

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FLA-FLU

No campeonato brasileiro de 1925, a seleção carioca foi formada com jogadores do Flamengo e do Fluminense. As outras torcidas reclamaram que não era uma seleção, era um Fla-Flu. E daí nasceu a expressão que, só depois, virou sinonimo de disputa.

Em 1926, o Flamengo teve que devolver à família Guinle o campo da rua Paissandu, emprestado com opção de compra, porque não tinha dinheiro. A Prefeitura do Distrito Federal arrendou-lhe um terreno de pouco valor, afastado, à margem da Lagoa Rodrigo de Freitas, precisando de aterro e urbanização.

Hoje, é a sede da Gávea. Só em 1931 o Decreto Municipal 3.686 concedeu ao Flamengo o direito de cessão e aforamento do terreno, pelo prazo de 60 anos.

Os títulos iam nascendo com as vitórias. A água mineral Salutaris promoveu em 1927 um concurso para escolher o clube “O Mais Querido do Brasil”, cuja taça, em prata, do tamanho de um homem, o “Jornal do Brasil” oferecia. O Flamengo venceu e encarnou o titulo até hoje.

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A NAÇÃO

Em 1929, o próprio Flamengo promoveu um concurso de escolha de uma frase para ele usar. Ganhou um torcedor, Julio Silva: “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”.

Durante um Fla-Flu, o estadio do Fluminense lotado, o deputado carioca Walter Bezerra de Sá, impressionado com a torcida rubro-negra, comentou:  “Esse Flamengo não é um clube, é uma nação”.  E nascia a “Nação Rubro-Negra”.

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NERY

O futebol era amador, as pessoas trabalhavam e jogavam. Só em 1933 foi implantado o profissionalismo no futebol carioca. Muitos morriam de tuberculose. Em 1929, morreu o Nery, um dos melhores zagueiros da época, no time desde a fundação.

Quando o Flamengo o procurou para oferecer ajuda, recusou dizendo que ele é quem devia ao Flamengo e não o Flamengo a ele.

Também de tuberculose, em 1931, morreu Nonô, mulato claro, porque o Flamengo não tinha jogadores negros, artilheiro dos campeonatos de 1921, 23 e 25 e campeão em 1921, 25 e 27.  E ainda de tuberculose morreu o craque Fausto dos Santos, “a Maravilha Negra”, aos 35 anos.

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NEGROS

A Liga Carioca de Futebol, que profissionalizou o esporte em 1933, começou com 6 clubes : América, Bangu, Bonsucesso, Flamengo, Fluminense e Vasco. E só depois do profissionalismo entraram negros no Flamengo: Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Zizinho, Jarbas, Fausto, Friedenreich.

Domingos da Guia começou no Bangu, aos 18 anos estava na seleção brasileira, foi para o Boca Juniors da Argentina (era “El Divino”) e em 37 veio para o Flamengo (era “O Divino Mestre”), onde foi campeão carioca de 39, 42 e 43. Na Copa do Mundo de 38, na França, foi eleito o melhor zagueiro do mundo.

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LEONIDAS

Leônidas, o “Diamante Negro”, começou no São Cristovão, em 32 estava na seleção brasileira e em 36 foi para o Flamengo como “o mais popular e querido jogador do Rio” e onde ganhava 80 contos por mês, o maior salário do futebol.

Mas era muito complicado. Dizia-se contundido, mas se lhe dessem dinheiro jogava. Em um carnaval, o Flamengo fez excursão à Argentina, ele se negou a ir. Acabou indo, mas na volta foi vendido para o São Paulo.

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ARY BARROSO

Em 1934, o prefeito do Rio, Pedro Ernesto, fez um empréstimo para o Flamengo construir seu estádio (na Gávea), inaugurado em 38, numa partida com o Vasco pelo campeonato carioca. Ali o Flamengo ganhou seu primeiro tricampeonato.

Na II Guerra Mundial, Ary Barroso, que se tornara sucesso mundial com “Aquarela do Brasil” e outras genialidades, foi convidado para trabalhar no cinema americano, criando canções. Foi e voltou logo: “Lá não tem Flamengo”.

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GILSON SAMPAIO

O Flamengo é mesmo isso : uma paixão nacional. Contei esses pedaços de historias, apenas dos 30 primeiros anos do Flamengo, para encher de água a boca de vocês, antes de lerem uma obra extraordinária, uma pesquisa fantástica, de um século inteiro da historia do Flamengo e do futebol do Rio: “Historia de Uma Paixão”, de Gilson Vieira Sampaio.

Não é um livro. É uma enciclopédia. Uma magnífica e monumental enciclopédia. O Gilson, pesquisador meticuloso, incansável e insaciável, foi pegar o Flamengo ainda no berço, nascendo como clube de regatas e se transformando na maior torcida do futebol brasileiro, em todos os tempos.

Em um século, foram 4.583 partidas, 2.519 vitorias, 1.029 empates e 1.035 derrotas. Fez 9.706 gols e sofreu 5.597. Mais do que um clube, do que uma nação, mais ainda do que uma paixão, o Flamengo é uma grande alegria do povo brasileiro.

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2 thoughts on “História de uma história

  1. Como é possível entrar em contato com o responsável pela matéria “História de uma história” fonte da informação, em hipótese documental

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