História de uma maluquice

Sebastião Nery

Domingo, dia de Pascoa, de manhã, ele saiu da Barra da Tijuca, onde trabalha, para almoçar com os pais em Niterói. Foi pela linha amarela, em seu Gol preto, nem novo nem velho, até bem conservado. Muita gente vindo para a praia e seu caminho livre, sem perigo nenhum.

Era o que ele, estudante universitário, pensava, ouvindo Jack Johnson. De repente, uma patrulha policial o ultrapassou e mandou parar:

– Documentos.

Abriu a bolsa, mostrou todos. Tudo em ordem.

– Falta uma coisa. A vistoria ainda não foi feita.

– Vou pagar esta semana. Ainda estamos em março.

– É, mas sem a vistoria o carro não pode trafegar. Pode descer.

– Mas, só por isso? Vou almoçar com meus pais em Niterói.

– Não adianta conversa. Encosta ali e entrega a chave. O carro fica.

***
O GUARDA

Ele já suava pelos cotovelos. Ir para onde e como? Voltar para a Barra? Um ônibus até Niterói? O guarda (era o mesmo) já tinha dado a volta e estava na janela do carona, com uma cara safada:

– Podemos conversar. Se a gente conversar, você pode seguir.

– Conversar o quê?

– Quanto é que você tem aí?

Ele meteu a mão no bolso, puxou 35 reais:

– É tudo que eu tenho, seu guarda.

– Mas na hora em que você abriu a bolsa, eu vi uma nota de 50.

Ele tinha jogado no chão e empurrado com o pé para baixo do tapete:

– Desculpe, não tenho 50 não. Sinto muito, mas são só esses 35.

– Então não tem conversa e pode me entregar a chave.

***
O SAQUE

Desesperado, entregou. O guarda deu dois passos, voltou:

– Você tem conta em banco? Vamos agora a Niterói sacar 100 pratas em um caixa eletrônico. Vou com você e meu companheiro vai atrás.

– O quê, seu guarda? O senhor ficou maluco? Imagina o senhor entrando comigo em uma cabine de banco. E se alguém vê, desconfia que é um assalto relâmpago e dá um alarme? O senhor está ferrado para o resto da vida. Perde o emprego e se lasca todo. E sua família? Tem filhos?

***
A LACOSTE

O guarda deu mais alguns passos, voltou com cara de ódio:

– Pensando bem, é uma maluquice mesmo. Um risco muito grande, por uma mixaria de 100 reais. Se ainda fosse para sacar 200, valia arriscar.

– Tenho a solução. Eu lhe dou essa camisa Lacoste. Vale 200 pratas.

E arrancou a camisa. O guarda olhou para os lados, gritou:

– Quem está maluco agora é você. Me dá essa merda desses 35 mesmo e vai dando o fora, ligeiro.

Deu o dinheiro e saiu rapido. Da casa do pai, um querido amigo meu, eles me telefonaram indignados. Queriam ir comigo à polícia para denunciar. Eu estava na praia. Pensando bem, achei que ir à polícia também ia ser uma maluquice. Ninguém ia fazer nada mesmo. Eles concordaram. E ainda tive que tirar os nomes porque o guarda está solto por aí.

***
MARGARINA

Quando o ministro Margarina (também conhecido como Mantega) aparece falando na TV, com aquela tranqüilidade, aquela doçura, parece que não é ele mas a bela filha atriz quem cuida das contas nacionais.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *