Histórias da política brasileira, que parecem ficção, mas são verdadeiras

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Charge do Dahmer, reprodução do Brasil de Fato

Marcelo Câmara

Durante mais de dez anos, nas décadas de 1970 e 1980, no início da minha vida de jornalista profissional, assinei colunas de humor em jornais e revistas de Niterói, Rio e Brasília e fiz televisão numa emissora carioca. Foi um tempo fértil de muita criação e arte, em plena ditadura militar, quando publiquei cerca de quinhentos textos para fazer rir e pensar. Um dos meus primeiros editores, no falecido Diário de Notícias – DN, do RJ, de gratas e ingratas memórias (não pagava os salários com correção), foi o criador deste blog, o competente jornalista Carlos Newton, que reencontro nesta Tribuna da Internet, após mais de quarenta anos.

Neste artigo, não criarei ou recriarei humor. Apenas irei contar algumas histórias políticas, humorísticas e verdadeiras, que vivi, que ouvi ou que me relataram na infância e juventude. Não há ficção nelas.

INJÚRIA – Numa sessão da Câmara Municipal de Angra dos Reis, RJ, o íntegro e voluntarioso vereador getulista militante do antigo PTB, Benedito Braz Pereira, ouve ressoar de um discurso inflamado: “Isto é uma brasfêmia!”. O edil trabalhista indignou-se: “Protesto, Senhor Presidente. Eu sou muito macho, sou homem, chefe de família. ‘Fêmea’ coisa nenhuma. Não admito a ofensa…!

CIDADANIA – A vereadora Júlia Rocha, de Rio Claro, RJ, na década de 1970, questiona o Plenário da Câmara Municipal: “Temos de parar com essa mania de conceder Título de Cidadão Rio Clarense pra gente de fora. Temos de prestigiar o pessoal da terra”.

ESTRADAS – Na década de 1960, o vereador Antonio Porto, o Baiaco, de Paraty, RJ, protestando, em sessão da Câmara, contra o isolamento do município, sem estrada que seguisse serra acima em direção ao interior, até o Vale do Paraíba, bradou: “Precisamos construir uma estrada de ferro, nem que seja de pau”. Outro vereador ponderou: “Mas, Excelência, é impossível colocar trilhos para subir a Serra do Mar…”

Baiaco retrucou: “Então vamos construir uma rodovia marítima, por cima d’água, cruzando a Baía da Ilha Grande…”

DIAGNÓSTICO – Nas eleições municipais de 1966 em Mangaratiba, RJ, um médico trabalhava como cabo eleitoral do candidato que fazia oposição a Edson Elias Dumas. No meio do sertão da Serra do Piloto, que faz divisa com Rio Claro, o médico após examinar um caipira, tentando cooptá-lo, diagnosticou: “O seu caso é grave, o senhor está com impaludismo”. O caipira rebateu prontamente: “Não, dotô, eu tô com Edson Dumas”.

VIRTUDES – Nas eleições de 1958 para Prefeito de Paraty, RJ, o vereador Antônio Núbile França, o Nhonhô, da UDN, famoso pelo seu dom e dotes na oratória política, tinha como vice outro vereador, Norival Rubem de Oliveira, do PSP. Num comício em Tarituba, bela praia e vila paratyense, Nhonhô elogia os candidatos da coligação estadual e local PTB-PSP-UDN a deputado estadual e federal, a senador e a governador, recitando as virtudes e predicados de cada um. Ele já tinha tomado umas pingas (era sábio e primoroso pingófilo) e no momento de falar do seu vice, Norival, o raciocínio falhou e ele começou a ratear:

Norival Rubem de Oliveira, meu companheiro de chapa, o grande Norival… Como ia dizendo, o grande Norival… Norival… o candidato a vice-prefeito, homem de muitas qualidades… Norival, Norival… Norival Rubem de Oliveira… o amigo de todas as horas… Norival Rubem de Oliveira…” E não sabendo o que dizer dele, arrematou: “Norival, que sempre bebeu comigo!”

Nhonhô e Norival venceram as eleições e dividiram o mandato. Cada um governou dois anos. Até hoje, se diz em Paraty que o melhor prefeito da sua história, foi um vice: Norival, que fez, realmente, uma bela administração.

SIGILO – Nas eleições legislativas de 1933, em Caicó, RN, um cidadão que votava pela primeira vez, depois de ser orientado sobre o sigilo do voto (“Ninguém pode saber em quem você votou, ouviu?”), se apresentou na porta da sala da biblioteca municipal, onde se localizava a sua seção eleitoral, se identificou na mesa eleitoral e foi orientado a ir até a cabine indevassável no fundo da sala para recolher a cédula do seu candidato a deputado à “Assembleia Nacional Constituinte do Brasil”.

Na saída, depois de percorrer os corredores com estantes de livros, ele teria de depositar a cédula na urna colocada junto à mesa, na porta da sala por onde entrou. Passou direto. A mesária chamou o sujeito: “Senhor, o seu voto, coloque aqui na urna.” Ao que ele reagiu: “De jeito nenhum. O voto é secreto, minha senhora. Ninguém pode ver. O meu voto eu escondi, está dentro de algum livro aí da biblioteca.

5 thoughts on “Histórias da política brasileira, que parecem ficção, mas são verdadeiras

  1. TI – índice.

    “Histórias da política brasileira,….”
    “Empreiteiro confirma que recebeu R$ 1 milhão “por fora”………..”
    “Pipocam passeatas pelo país exigindo empregos.”
    “À beira da falência, Bumlai é investigado por empréstimos ………………..”
    “Brasil tem o maior número absoluto de homicídios no mundo.”
    “No painel do Globo, FHC exibiu contradições……………”
    “Dos 69 parlamentares do PT, 40 deles já contestam Lula………”
    “FHC é candidato mesmo………..”
    “Pesquisas apontam que a cada 1% de aumento de desemprego aumenta em 4% o índice de violência.”
    “Delegado que criou a Lava jato diverge………..”
    “Ex-líder de Dilma ataca dissidentes do PT e …….”
    “Folha de pagamentos tupiniquim é tributada em mais de 40%,….”
    “E Temer ainda tenta depreciar as denúncias …………..”
    “Brasil tem mais de 12 milhões a procura de emprego, 11 milhões que desistiram de procurar, 10 mi de subempregados………..”

    • Carmem.
      Na eleição para a prefeitura de São Paulo, o meu cunhado fazia residência no PS da Lapa.
      O Jânio depois de um comício sob um forte sol passou mal e foi levado ao PS. O meu cunhado viu que ele estava chumbado e perguntou:
      O Sr.bebe ?
      O Jânio respondeu: Bebo e aceito…

  2. Peço licença ao amigo para narrar uma pequena passagem por mim presenciada. Corria o ano de 2008 em Itaipuaçu, distrito de Maricá, no Rio de Janeiro. Convidado por empolgado defensor do PT, fui a um evento no qual partidários do notório prefeito Quaquá entoavam loas ao seu futuro governo, com a promessa de se aplicar ao longo dos próximos oito anos (sim, já se viam reeleitos, como de fato ocorreu) a cartilha que faria o milagre da transformação na citada localidade. Tudo estava como o previsto… Mentiras, projetos utópicos, discursos inflamados de ataque à oposição. Em dado momento, fiz uma pergunta simples, daquelas que se faz para cumprir tabela. A resposta, contudo, fez com que eu caísse na realidade incontestável da política regional. Um dos presentes, vereador reeleito na última disputa, levantou-se e sapecou a magistral pérola:

    ” – O povo precisa entender que o legislativo legisla e o executivo executa!”

    Passei alguns dias tentando captar a ironia da explicação, mas desisti e fui à vida. E Maricá sobrevive, apesar de tudo…

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