Histórias paulistas

Sebastião Nery

SÃO PAULO – Conversando com José Serra e o comando nacional do PSDB no Palácio da Alvorada, em Brasília, sobre a escolha do vice de Serra em 2002, Serra falou em Itamar, Fernando Henrique perguntou:

– Serra, e se você morrer? O Itamar é confiável? Ele assume e vai perseguir até o fim a todos nós, que ficamos vivos.

Mal Serra saiu, Fernando Henrique, que sabia que ele tinha convidado Itamar – Jarbas Vasconcelos disse que não ia deixar o governo de Pernambuco -, mandou Pimenta da Veiga vetar Itamar em nome do PSDB de Minas e Michel Temer vetar em nome do PMDB da gamela oficial.

Com o veto do Presidente no PSDB e no PMDB, Itamar, que vinha credulamente conversando com Aécio Neves e havia anunciado que só falaria na noite de sexta-feira, antecipou a decisão, ficou no governo para disputar a reeleição e apoiar Lula, que venceu folgadamente em Minas.

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LEMBO

Claudio Lembo telefonou para um amigo de Araçatuba:

– Você já se inscreveu em algum partido?

– Não. Estava esperando as suas ordens. Estou com você e não abro.

– Ótimo, muito obrigado. Então, entre no PP.

– No PT? O do Lula?

– Não. No PP.

– Continuo ouvindo mal.

– Vou falar alto e devagar: PP. P de partido e P de banco.

O amigo entendeu. O presidente do PP paulista era Olavo Setubal.

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PALHAÇO

O delegado Nelson da Veiga, diretor-geral da polícia de São Paulo, tinha mania de chamar todo mundo de palhaço:

– Bom dia, palhaço. Vem cá, palhaço. Palhaço, meu caro.

Um dia, Paulo Pestana, diretor da radiopatrulha, entrou no gabinete: :

– Nelson, o cônsul da Espanha está ai fora querendo falar com você.

Nelson bateu a campainha, chamou o oficial de gabinete:

– Manda esse palhaço entrar.

O cônsul já ia entrando, ouviu:

– Cheguei a São Paulo ontem. Como o senhor já sabe meu nome? O nome do cônsul era Antonio Palhaço.

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SEGREDO

Em Morro Agudo, a 80 quilômetros de Ribeirão Preto, havia um comerciante e chefe político muito ativo, de muito prestígio, mas analfabeto. Tinha um empregado que lia as coisas para ele.

O comerciante brigou com a mulher, separaram-se, contrataram advogados, foram para a Justiça. E, de repente, chegou uma carta dela de inúmeras folhas, passando a limpo (ou a sujo) os longos anos de vida em comum. Ele não podia dar ao empregado para ler, chamou um amigo:

– Você pode ler esta carta para mim? Mas vai me fazer um favor. Sei que ela vem falando tudo. Então leia alto para mim, mas tape os ouvidos.

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LUTO FESTIVO

Francisco Rodrigues, prefeito de Piraju, gostava muito de Carnaval. Planejou mais um no Sábado de Aleluia, Domingo de Páscoa e segunda-feira gorda, com desfile de escolas de samba na praça principal, muita música, muita bebida, um festão de arromba.

Tudo pronto, Piraju empolgada com o repeteco do Carnaval, acontece a tragédia: na véspera, morre em desastre de automóvel um querido ex-vereador e ex-prefeito de Piraju. E agora? Suspender o Carnaval? Como homenagear o ex-prefeito e manter os três dias de festa?

O prefeito baixou o seguinte decreto, publicado no jornal de Piraju:

“O prefeito municipal de Piraju, Estado de São Paulo, no uso de suas atribuições legais, resolve declarar luto oficial no município de Piraju, por três dias, em pesar pelo passamento do Sr. Joaquim Otoni da Silveira Camargo, ex-vereador à Câmara Municipal e ex-prefeito do município.

Prefeitura Municipal de Piraju, em 18 de abril de 1981.

a) Francisco Rodrigues, prefeito municipal.”

E Piraju pulou os três dias do Carnaval do luto-festivo.

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