Honduras – venceu a democracia

Gen. Ex. Luiz Gonzaga S. Lessa

Apesar de próximo, a crise hondurenha resiste em chegar ao seu final.

Muito  já se falou e escreveu sobre ela, mas  paixões esquerdistas bolivarianas têm impedido uma análise isenta dos fatos ocorridos, teimando em classificar como golpe a deposição de Zelaya , quando está comprovado que  foi este senhor que detonou a crise que se arrasta por mais de quatro meses, quando intentou violar a constituição do seu país em busca da uma reeleição com ela incompatível.

A reação dos poderes legislativo e judiciário  foi imediata e  uníssona em condenar a atitude do presidente golpista, culminando na sua prisão e expulsão do país. Se houve golpe este  não foi das forças armadas, que só  se limitaram a cumprir as ordens que lhe foram dadas pela Suprema Corte do país. De fato, o  artífice do infausto  acontecimento foi o Sr. Zelaya, que  seguiu as  orientações chavistas para transformar Honduras em mais uma republiqueta bolivariana sob a sua órbita de influência.

Todos sabemos e acompanhamos os acontecimentos que se seguiram em que restou, como fato evidente e de excepcional importância, a resistência do povo hondurenho em não se sujeitar às espúrias pressões internacionais e ao isolamento diplomático do país. Honduras, em todas as sofridas negociações que enfrentou, deixou sempre muito claro o que queria: continuar a viver num regime de liberdades democráticas, o que lhe seria tolhido se Zelaya tivesse sido o vencedor.

A resposta do povo hondurenho nas urnas não poderia ser mais definitiva, elegendo o Sr Porfírio “Pepe” Lobo com uma esmagadora maioria, em pleito que contou com o comparecimento recorde de 61% dos eleitores, apesar de toda a campanha comandada por Zelaya, do interior da embaixada brasileira, para que o povo não comparecesse às eleições. Note-se, o voto não é obrigatório no país.

Mais de 300 observadores estrangeiros independentes asseguraram a lisura do pleito e confirmaram a vontade explicita do povo hondurenho. Ademais, a retumbante manifestação do Congresso – 111 votos contra apenas 14-  pelo não retorno de Zelaya ao poder foi acachapante. E não poderia ser de outra maneira depois das recentes declarações do lugar tenente de Zelaya, Carlos Reina,  que deixou a embaixada brasileira onde estava abrigado para  impor descabidas exigências que culminariam com a anulação das eleições, a prorrogação do mandato, a prisão dos supostos golpistas etc., em franca violação aos acordos firmados para o estabelecimento de um governo de coalizão.

Pouco a pouco, a comunidade internacional irá reconhecer como legítimo o governo de Porfírio Lobo, recém eleito, tendência que já se observa em vários países como Espanha, Colômbia, Peru, Costa Rica,  comunidade européia e muito possivelmente os EUA.

A crise hondurenha pos à mostra toda a fragilidade da Organização dos Estados Americanos (OEA) em resolver  problemas continentais. Seguidas vezes foi ultrapassada.  A sua parcialidade e o seu envolvimento ideológico impediram-na de compreender e julgar de forma isenta e imparcial o que estava ocorrendo em Honduras. A  situação só se encaminhou para uma solução depois que os EUA, efetivamente, passaram a  comandar as negociações.

E o Brasil como fica nesse imbróglio a que foi levado pelas artimanhas de Hugo Chávez, permitindo que um caudilho golpista se instalasse na sua embaixada em Tegucigalpa, não como um asilado, e, sim, na esdrúxula situação de convidado, transformando-a no seu efetivo gabinete de trabalho e no foco da agitação interna do país?

O Brasil fica mal, muito mal e, agora, procura uma saída honrosa para a crise em que se envolveu, em área alheia ao seu interesse imediato e fora da sua esfera geopolítica de influência, tudo na busca de um perigoso protagonismo que deseja exercer na política internacional e para o qual ainda  não se encontra devidamente preparado.

Nossa diplomacia, inexplicavelmente a reboque de Chávez,  meteu os pés pelas mãos e se mantém irredutível na indefensável posição de não reconhecer as eleições  de 29 de novembro p.p. e, assim, ignorar a explícita vontade do povo hondurenho. Pretende, à sua revelia, impor-lhe uma solução, em franca violação ao princípio da não interferência em assuntos internos dos países amigos, até então um dos pilares do Itamaraty.

A radical posição de Lula só encontra justificativa na sua veia ideológica e na derrota sofrida. Não é fator de contenção de eventuais golpes na América Latina, que sempre poderão ocorrer quando políticos ambiciosos e irresponsáveis, desconsiderando as condições objetivas nacionais, tentarem violar a constituição do país.

Não causa surpresa tamanha idiossincrasia. Dividida entre o fraco e incompetente ministro Amorim e o falacioso e folclórico  assessor palaciano Garcia, que, vesgo e tendencioso em assuntos internacionais, só leva o Presidente Lula  a proclamar besteiras e estultices, nossa diplomacia, até há pouco considerada como competente e responsável, vem colecionando sucessivos reveses que muito a comprometem.

Da crise hondurenha emanam como grandes perdedores:

– a OEA, que se mostrou incapaz de gerenciar uma crise continental e que, por isso mesmo, tem a sua validade mais uma vez contestada, pouco importando o que ainda venha a deliberar;

– o venezuelano  Hugo Chávez, que se viu frustrado por  não atrair para a sua órbita bolivariana  mais um país centro-americano, que, somado à Nicarágua, exerceria uma forte influência na América Central;

– Finalmente, perdeu, e muito, o Brasil, pelas posições ambíguas que tomou e vem mantendo em que deixa prevalecer a componente ideológica sobre os legítimos interesses do país. Sem necessidade, abrimos um contencioso  com os EUA  pelas declarações do assessor palaciano Garcia  que se disse decepcionado com o presidente Obama e com a sua política exterior, o que mais tarde foi forçado a desmentir. Vimos o Presidente  Lula ser  contestado na sua idílica  postura de defensor do bem contra o mal por um estadista da envergadura de Oscar Arias,  quando lhe atribuiu e ao Brasil o rótulo de “dupla moral”, ao condenar as eleições de Honduras e defender as corruptas eleições iranianas, que levaram às ruas milhares de manifestantes inconformados com as manipulações ocorridas, muitos dos quais, presos, estão sendo julgados e  condenados à morte. Ou mesmo com as comprometidas eleições na Nicarágua, que tiveram o pleno apoio brasileiro, ignorando as irregularidades perpetradas. Por mais que o governo diga o contrário, o  Brasil e a sua diplomacia, em Honduras, sofreram o seu  mais sério revés dos últimos anos.

A união do continente latino-americano, da mais alta prioridade para a diplomacia brasileira, está sendo contestada e, como consequência, a nossa liderança é  posta em xeque e, com ela, a que o Presidente Lula julga possuir. Muito caro é  o preço que o futuro irá cobrar do país  pela sua inconseqüente atuação.

O grande vencedor é o bravo povo hondurenho, que sabendo o que queria  não se deixou intimidar pelas espúrias pressões internacionais que, sem êxito,  tentaram  por ele decidir. Fez  prevalecer a democracia e com ela a sua liberdade de livre escolha.

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