Honorável ficha suja

Sebastião Nery

Demóstenes tinha uma rede de alto-falantes no bairro da Liberdade, em Salvador, o mais populoso da capital baiana. Toda manhã, toda tarde, com o vozeirão poderoso, Demóstenes fazia propaganda de seus morins, seus sabonetes, seus perfumes.

Até que a guerra acabou, vieram a anistia, a redemocratização, as eleições de 1945. Demóstenes foi para seus alto-falantes e comunicou ao povo que era candidato a senador.Inscreveu-se no POT ( Partido Orientador Trabalhista) e começou a campanha. Passava manhãs e tardes falando.

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DEMÓSTENES

A campanha não pegou. Ninguém levou a sério. Demóstenes recuou. Anunciou que seria candidato a deputado federal. E entrava noite a dentro falando, falando. Ninguém acreditava que Demóstenes, apesar da força do nome, da beleza da voz e do poder da sigla, conseguisse se eleger.

Demóstenes recuou de novo. Disse que ia sair para deputado estadual. E continuou falando, falando, de manhã, de tarde, de noite. Nem assim a campanha pegou. Um dia, desesperado, resolveu ser humilde e começar do começo. Ia ser vereador. Aí todo mundo acreditou. E o povo começou a chamar Demóstenes de vereador.

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A FAIXA

Mas o TRE (Tribunal Regional Eleitoral) da Bahia, nas vésperas das eleições, negou registro ao diretório do POT no Estado. Demóstenes ficou sem legenda. No dia seguinte, a Praça Municipal, no centro de Salvador, amanheceu com uma faixa enorme bem em frente ao elevador Lacerda:

– “Demóstenes avisa a seus amigos e eleitores que não vai mais ser candidato a merda nenhuma”.

E escreveu o palavrão em vermelho.

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SARNEY

No ano passado, depois das cassações pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) dos direitos politicos do ex-governador e ex-senador de Brasilia Joaquim Roriz e do ex-governador e ex-senador do Pará Jader Barbalho, por serem “fichas sujas”, o ex-governador do Maranhão e ex-senador do Amapá, José Sarney, entrou em pânico.

Ele estava apavorado, com medo de ser o próximo. O pais inteiro sabe que Sarney é o “Rei dos Fichas Sujas”, o chefão dos “Honoráveis”. Não sendo candidato na eleição do ano passado, não tinha julgamento na pauta do TSE.

Mas bastava um procurador acionar um de seus inumeráveis processos de corrupção politica no Maranhão ou no Amapá (como o dinheiro do tumulo de faraó na “Fundação José Sarney”) e lhe cortariam o pescoço.

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PALMERIO DORIA

Para pendurar o galardão de “ficha suja” no peito de Sarney, a Justiça Eleitoral nem tempo gastaria com mais documentações e maiores questionamentos. É só incluir nos autos o livro do brilhante e consagrado jornalista paraense-paulista Palmerio Doria:

– “Honoráveis Bandidos – Um Retrato do Brasil na Era Sarney” (Editora Geração – SP), o livro mais vendido, mais apoiado e mais aprovado este ano no pais, e até indicado pela Camara Brasileira do Livro para receber o “Premio Jaboti” de 2010.

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A MEDALHA

Os amigos de Sarney não lhe dizem pessoalmente para não melindrá-lo, mas já conversam, em Brasília, sobre a necessidade de Sarney fazer como o Demóstenes. Estender em 2014 duas grandes faixas nas praças centrais de São Luis e Macapá:

– “O senador Sarney avisa a seus amigos e eleitores que não vai mais ser candidato a merda nenhuma”.

Só assim Sarney se livrará da medalha de honra dos “Fichas Sujas”, concedida pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

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One thought on “Honorável ficha suja

  1. Tudo isso só nos envergonha. Como ainda podemos conviver com tanta safadeza, e principalmente sendo presidida pelo nosso honorável corrupto, Dr. Sarney, e como a justiça pode manter tantos processos na gaveta. Assim nunca seremos um país sério.

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