Honorável ministro

Jorge Béja

“Não estou vendo nada. Me deixa em paz, rapaz. Vá chafurdar no lixo como você faz sempre. Sim, eu não tenho nada a lhe dizer. Eu não quero nem saber o que o senhor está tratando, palhaço”. Senhores leitores, essas ricas e primorosas frases não saíram da boca e da reação de uma pessoa qualquer, ao se desentender com outra logo após uma colisão de veículos. Ou de um torcedor que na arquibancada discutiu em defesa de seu time. Ou de um marido pilantra, questionado pela honesta esposa, aborrecida por ver o marido chegar em casa de madrugada, bêbado, sem dinheiro e com marca de batom pela roupa e até na cueca. Ou, ainda, de um motorista visivelmente alcoolizado (ou drogado) que, surpreendido ao volante pela “Operação Lei Seca”, resiste, desacata, ofende e chega agredir os agentes da autoridade que o flagraram.

Ilibada conduta?

Não, senhores e senhoras, cidadãos de bem no nosso Brasil, essas frases, carregadas de rancor, foram ditas pelo Honorável Ministro Presidente do Supremo Tribunal Federal e também presidente do Conselho Nacional de Justiça, o Excelentíssimo Doutor Joaquim Barbosa. Sim, é verdade. E não foram pronunciadas às escondidas, no recinto de seu gabinete ou do seio familiar, o que já seria censurável. Foram respostas públicas,dadas em alto e bom som ao repórter Felipe Recondo, do jornal O Estado de São Paulo (Estadão), à saída de uma reunião do Conselho Nacional de Justiça, em Brasília, Capital da República. Ao Ministro-Presidente o jornalista iniciou uma pergunta que nem chegou a concluir “Como o senhor está vendo…” (no que foi interrompido pelo Ministro-Chefe da Justiça brasileira). E enquanto esperava chegar o elevador, o jornalista insistiu, com urbanidade: “Mas eu tenho que fazer pergunta, é o meu trabalho”. Foi inútil. O Honorável Ministro deu aquelas respostas mal educadas e se foi.

JUSTIFICATIVA…

Mais tarde, em nota oficial, o Conselho Nacional de Justiça tentou justificar o comportamento de seu Ministro-Presidente, informando que Joaquim Barbosa estava cansado e sentindo fortes dores, que o episódio foi isolado e não condizente com o histórico de relacionamento do ministro com a imprensa!!!! e que por isso respondeu daquela maneira. A nota partiu do secretário de comunicação do STF, Wellington Silva. Não, não podemos concordar.

A urbanidade, a cidadania e o Pacto Social repudiam o ocorrido. Primeiro, porque o pedido de desculpas públicas deveria partir do próprio Honorável Ministro e, não, da assessoria de imprensa da Corte. E cumpria (e ainda cumpre) a Barbosa render-se à sua hostilidade e falta de educação neste episódio, chamar o jornalista e recebê-lo, fraternalmente, em seu gabinete. Ou, então, ir à casa de Felipe Recondo ou à sucursal do Estadão e, pessoalmente, pedir-lhe mil vezes perdão. É o mínimo que se esperava (e se espera) de Sua Excelência.

E não seria a primeira vez que Joaquim Barbosa iria pedir desculpas públicas a alguém contra quem sua ira investiu. Numa das muitas sessões do julgamento do Mensalão, Joaquim Barbosa pediu desculpas ao seu colega Ricardo Lewandovski, antes por aquele tratado ríspidamente. Ricardo aceitou, perdoou e deu o assunto por encerrado. Noutra, foi o meigo e poético Ayres Brito que, na presidência do STF e em nome da Corte, também se desculpou com Lewandovski, por outra agressão verbal partida de Barbosa antes da suspensão da sessão.

Que pena! Quando todo o povo brasileiro rende os mais significativos e espontâneos reconhecimentos a Joaquim Barbosa (a máscara de seu rosto, com toga e tudo, foi a que mais vendeu no último carnaval), até mesmo desejando que o Honorável Ministro venha ser Presidente do Brasil (existe um site chamado “Joquim Barbosa-Presidente”)…Quando sua imagem severa, intransigente com a moralidade, legalidade e a honestidade com a coisa pública, penetra na mente do povo que o aplaude por onde passa…Quando mais de 200 milhões de brasileiros já apostam em Barbosa, seja no comando do Poder Judiciário ou no do Poder Executivo, Sua Excelência se desnuda, se põe a nu, se revela por inteiro, dando mostra de quem é.

ILIBADA CONDUTA?

Sabemos que para ser ministro do STF é necessário que o indicado pelo presidente da República tenha notável saber jurídico e ilibada conduta. Quanto ao primeiro requisito, Joaquim Barbosa o tem de sobra. Quanto ao segundo, começa a dúvida. É que por ilibada conduta se entende que seu portador tenha serenidade, urbanidade, fidalguia e respeito no trato com o próximo, seja este quem for, mais ainda com quem está no pleno exercício de sua atividade profissional, como é o caso do jornalista previamente credenciado junto à Corte. A excelente reputação do senhor ministro era, até aqui, por mérito próprio e pela natural e consequente divulgação que a própria imprensa, contra quem ele agora investe, de forma ofensiva e grosseira, dele fez e faz.

Sem pesquisar muito, registre-se que três Barbosas marcaram a História do Brasil. O primeiro, foi Rui, que hoje se sentiria envergonhado e puxaria a orelha de Joaquim dizendo-lhe o que escreveu em Cartas de Inglaterra: “Senhor Juiz, Vós Que Sois Alevantado Do Povo Para Julgar Os Seus Atos, Lembrai-vos Que Este Próprio Povo Julgará a Vossa Justiça e a Vossa Conduta”. O segundo foi o goleiro da seleção brasileira de futebol que perdeu a Copa do Mundo de 1950 para o Uruguai em pleno Maracanã. Ele sempre dizia que no Brasil existe pena perpétua, numa alusão à culpa que os brasileiros lhe atribuíam ao tomar o segundo gol do Uruguai. E o terceiro é Joaquim Barbosa, forte pendão da esperança e que se desmereceu por si próprio. Somente um contrito pedido de perdão resgatará sua ilibada reputação.

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