Hospital Rocha Maia: portas fechadas para a vida humana

Pedro do Coutto

Reportagem de Bruna Talarico, foto de Gabriel de Paiva, O Globo, destacando e denunciando à opinião pública o incrível fechamento das portas do Hospital Rocha Maia, no domingo, por falta de médicos, são momentos altos do jornalismo e do compromisso direto dos jornalistas para com o interesse coletivo. Compromisso insubstituível, matéria prima de profissão que exercemos. Lente eterna entre os fatos – sejam quais forem – e a sociedade. Graças a Deus sempre foi e será assim.

Um descaso absoluto, o episódio Rocha Maia. Uma vergonha para o prefeito Eduardo Paes e para o médico Hans Dohman, secretário de Saúde do município. Não foi um fato isolado – afirmou o vereador Paulo Pinheiro. É o resultado de um processo de omissão que predomina no setor.

Omissão sim. Não tem o menor cabimento que um hospital público, voltado portanto para os que não podem pagar por um atendimento urgente, permaneça do início da manhã às 19hs de domingo com o portão cerrado. A reportagem de Bruna Talarico com a foto de Gabriel de Paiva saiu na edição de segunda-feira. A Secretaria Municipal de Saúde teve o revoltante cinismo de tentar negar a evidência, afirmando que os casos urgentes foram atendidos. Falso.

Tanto assim que o Rocha Maia dizia às pessoas em busca de socorro de urgência que procurassem a UPA de Botafogo, Rua Nelson Mandela ou o Miguel Couto. Mas a vereadora Teresa Bergher, revoltada com o deboche, disse a mim que a UPA de Botafogo não funciona como deveria, é uma ilusão. Como tantas outras.

O comportamento de Eduardo Paes e Hans Dohman – digo eu – é desprezível. A começar pelo desprezo para com a população carioca. O Rocha Maia, domingo, constitui uma página negra na história da saúde pública do Rio de Janeiro. Fechando as portas por falta de médicos, na realidade fechou as portas para a vida. Como dizer que os casos urgentes foram atendidos, se os portões estavam fechados? Quem procura um hospital num domingo não está a busca de uma consulta periódica. Não. Quem vai a uma unidade pública é porque está precisando de urgência.

Terá ocorrido algum caso fatal ou de conseqüências graves por falta de atendimento? É possível. A culpa maior é diretamente do prefeito Eduardo Paes. No segundo  plano, do secretário de saúde, especialista de renome. Deveria ter mais consciência pública, mais compromisso social, mais amor à sua própria profissão.

Teresa Bergher e Paulo Pinheiro defendem uma reestruturação urgente e profunda na área municipal da Saúde. Não é possível pagar-se a um médico 2 mil reais por mês e, com este vencimento, querer que as vagas existentes no quadro sejam preenchidas. O secretário Dohman anuncia a realização, autorizada pelo prefeito, de concurso público para admissão de 2 mil e 500 médicos , dos quais 1 mil e 700 especialistas. Mas de quando é esta autorização? Importante saber, para que se tenha conhecimento da dimensão do hiato entre a palavra e sua consequência  concreta. E não é só isso. Quando será efetuado tal concurso?

E é preciso também considerar, como acentuou Paulo Pinheiro, que da realização do concurso, cujo edital ainda nem foi publicado, à classificação e à nomeação, passam-se provavelmente oito meses. Nesse espaço de tempo, resultado de  um processo de inércia, quantas pessoas vão encontrar novamente no caminho portas fechadas da incompetência e do descaso? A indignação é a resposta.

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