IBGE: apenas 600 mil dos que trabalham (0,7%) ganham mais de 20 mínimos no Brasil

Pedro do Coutto

Ao ler reportagem de Ranier Bragon e Paulo Gama, Folha de São Paulo de domingo 15, comparando o salário médio dos empregados de empresas privadas (1.434 reais ao mês) com o do serviço público federal (2.598), me veio o impulso de verificar as faixas salariais do país.

Fui consultar o Anuário Estatístico do IBGE, relativo a 2010. Na página 48, encontrei a divisão da mão de obra ativa (92,6 milhões de pessoas) pelas diversas escalas adotadas pelo Instituto. Confesso que minha curiosidade aumentou, como escrevi recentemente, ao ler que no cálculo do custo de vida o IBGE o faz de forma muito abrangente, considerando as famílias que ganham 40 salários mínimos.

É extremamente difícil encontrar unidades familiares com tal renda. Explico. O Anuário Estatístico a que me refiro, que se encontra à venda na livraria do próprio IBGE, para início de conversa, informa que 8 milhões e 900 mil pessoas (não famílias) ganham mensalmente até meio salário mínimo. Representam portanto 9% da força de trabalho. Mais que um absurdo, um crime conduzindo à escravidão, abolida em 1888, mas que resiste ao tempo. Inconstitucionalidade absoluta, já que a Carta de 88 não permite que pessoa alguma ganhe abaixo do mínimo. Há decisão unânime do STF nesse sentido. Porém é a mancha moral que o IBGE ilumina.

Em segundo lugar, a parcela de 18,2 milhões de seres humanos ( praticamente 20%) ganham o salário mínimo. Assim, constata-se que 29% dos que trabalham situam-se no percurso que vai de meio a um salário mínimo. No terceiro degrau, encontram-se os que percebem de 1 a 2 mínimos. São 29,5 milhões de trabalhadores, correspondendo a 32% do total. Somando-se os que recebem de meio a dois pisos, vamos deparar com 61% da mão de obra brasileira.

Ainda mais espantoso é o fato, igualmente apontado pelo IBGE, de que 9% (mais de 8 milhões de pessoas) simplesmente não terem rendimento algum. Como sobrevivem? Comprova-se, dessa forma, que 70% da população ativa estão comprimidos entre zero a dois salários mínimos mensais.

Mas vamos às outras escalas. Onze por cento (9,8 milhões) têm rendimento de 2 a 3 SM. De 3 a 5 pisos são 9%. Portanto, 80% da mão de obra não passam de 2 mil e 725 reais. Onde estão, nesta rede, os 28 milhões que deixaram a miséria e a pobreza e se tornaram a nova classe média, como chegou a anunciar o economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas?

Nosso comentário, agora, ingressa numa outra esfera. A dos que ganham de 5 a 10 SM. Cinco por cento, correspondendo a 4 milhões e 900 mil pessoas. Começamos a chegar ao andar de cima, como no filme Metrópolis, de Fritz Lang, que tanto inspira hoje Elio Gáspari, como no passado inspirou René Clair (A Nós A Liberdade) e Charles Chaplin (Tempos Modernos).

Saimos do elevador no andar em que se encontram aqueles cujos salários vão de 10 a 20 SM. Um milhão e 900 mil pessoas, ou 2,5% de nossa força de trabalho. No topo da pirâmide, fotografada pelo IBGE, os que ganham mensalmente acima de 20 mínimos. Apenas 600 mil homens e mulheres, contingente percentualmente de 0,7%.

Não aparecem na foto do Anuário editado pelo presidente do IBGE, Eduardo Pereira Nunes, aqueles que moram no duplex de 40 salários mínimos. Pode-se supor, pelas diferenças percentuais entre uma faixa e outra, que sejam somente 300 mil pessoas. No total de 92,6 mil que exercem atividades remuneradas.

Por quê, então, calcular a inflação anual incluindo os que se encontram no Empire State da sociedade? Só pode ser para reduzir o impacto da alimentação em percentagem conjunta de todas as classes.Por essas e outras é que o Brasil é a sexta economia do mundo (PIB de 2,4 trilhões de dólares) e o de número 84 na relação de qualidade de vida. Poucos que têm tanto, tantos que não têm, minha parte há de estar com alguém. É o que diz a marchinha de carnaval de 1954. O tempo passou na janela, como Chico Buarque disse em sua poesia.

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One thought on “IBGE: apenas 600 mil dos que trabalham (0,7%) ganham mais de 20 mínimos no Brasil

  1. POR QUE voces não usam de toda honestidade e façam uma compração entre estes dados e os do governo de FHC (PSDB) ?

    Por que A G O R A vocês comparam o Brasil com os países do 1° mundo sem falar de como o PT encontrou o País. (14° Esonomia do mundo, divida interna passou de 80 Bilhões para 860 Bilhões, Empréstimo no FMI, Pior divisão de Renda do Mundo, Privativação da Vale por 6 Bi e Valia 120 Bi).

    Alerta a Classe Intelectualizada Brasileira que serve Sempre de Massa de manobra para a Elite Dominante:
    O Candidato do PSDB ja esta falando que vai tomar medidas impopulares. Em Minas Gerais Implantou o “Choque de Gestão” . Em outra palavras, foi implantada uma forte redução dos gastos com pessoal (que é o que gira a economia) e esse dinheiro foi direcionado para a construção do Centro Administativo (R$1.200.000.000,oo Bilhões) e em propaganda R$2.000.000.000,oo Bilhões. A velha máxima de governos anteriores: Reduzir os gastos do Governo e investir em Infra estrutura – depois dividir o Bôlo. Para quem saber ler um pingo é letra. Obra é muito bom. Não é ?

    Sr. Empresário o governo do PT criou 80.000.000 milhões de novos consumidores que é mais que os últimos 4 governos juntos.

    Vote e ajude o qu vai ser bom para você.

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