Ibope: povo confia mais em Dilma Rousseff do que no governo

Pedro do Coutto

Na pesquisa feita por encomenda da Confederação Nacional da Indústria, o Ibope revela que a população, na realidade, confia muito mais na presidente Dilma do que no governo dela. Em matéria de pesquisa, digo sempre, é importante ver nos índices, traduzi-los e interpretá-los, do que apenas ver os números.

Excelente reportagem de André de Souza e Chico Góis, O Globo de quinta-feira, focalizou o levantamento, inclusive comparando as taxas registradas em março e as assinaladas em julho. Houve, sem dúvida, reflexo de escândalos sucessivos que ocorreram, e estão acontecendo, recuo em ambos os casos. Porém o declínio do governo como um todo é bem maior do que a perda de popularidade de Dilma Rousseff. Esta se mantém bem acima daquele.

Basta conferir. Quarenta e oito por cento – mesma taxa encontrada pelo Datafolha, FSP de domingo 7 – consideram a administração ótima e boa. Mas 67% aprovam o desempenho de Dilma. Confiam nela, outra pergunta do Ibope. E a parcela de 68 pontos mantém em relação à presidente perspectiva favorável. Portanto, a exemplo do que ocorreu com Lula, a imagem pessoal de um presidente situa-se em patamar bem acima do que a fotografia embaçada de sua equipe.

Também pudera. Me referindo a Rousseff, que é o caso que está na ordem do dia. Depois dos escândalos Antonio Palocci, Alfredo Nascimento, e os que envolveram fortemente os ministérios da Agricultura e do Turismo, manter alto índice de aprovação é a prova de que a personalidade é forte.

Na Agricultura, o secretário executivo Milton Ortolan liberou o acesso do lobista Júlio Fróes ao gabinete. No Turismo, o secretário executivo Frederico Costa teve gravada pela PF conversa telefônica na qual transmitia instruções ao dirigente de uma ONG – sempre elas – , Fábio Melo, a respeito da melhor forma de montar as aparências indispensáveis para o pleno exercício de uma fraude com dinheiro público.

Os dois foram demitidos pela presidente da República. Não podia ser de outra maneira. Ambos inclusive, eram os substitutos imediatos dos ministros Wagner Rossi e Pedro Novais, segundas pessoas na hierarquia dessas secretarias de estado.

Some-se a tudo isso o episódio absurdo desencadeado pelo ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim que, como escrevi há poucos dias, partiu para o ataque buscando desestabilizar a presidente da República e talvez até o governo no plano institucional. Fracassou, é claro. Mas a crise que criou deixa marcas. Menores das que ele certamente havia previsto. Mas sempre marcas que ficam no rastro do tempo. E não é só.

Em consequência de uma péssima estrutura partidárias – nível parlamentar dezenas de graus abaixo dos níveis do passado – setores da base governamental no Congresso declararam-se praticamente em greve. Reportagem de Maria Lima, Fernanda Kracoviks e Gerson Camaroti, também no Globo de quinta-feira, focalizou em cheio o inédito movimento fisiologista. Aliás único no mundo. A presidente está demitindo corruptos, mas indicados por nós? – colocaram a questão essencial. Essencial para eles. Não para nós. Transportaram Hamlet, passando da tragédia para a farsa. Total. Vergonha absoluta.
É possível que algum leitor interprete o cotejo que proponho entre as figuras do parlamento, digamos, de 45 a 65, com as deste ano, como impulso de saudosismo. Se dúvida surgir, faça a lista de nomes de uma época e outra. Se a comparação não funcionar, a impossibilidade será a melhor resposta. Nunca dantes, no Brasil, houve tanta corrupção, fisiologismo, atitudes de tão baixo nível. Intelectual e social.

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