Ilusão e desilusão no futebol

Tostão (O tempo)

Duas condutas de dirigentes de clubes merecem elogios. Uma, do presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, que cortou toda a ajuda às torcidas organizadas, após a agressão de torcedores aos jogadores. Espero que todos os outros clubes acabem com essa relação promíscua, uma das causas da violência no futebol.

Por outro lado, a sugestão do presidente da Federação Paulista, Marco Polo Del Nero, de os dirigentes formarem e financiarem uma torcida do próprio clube, com instrutor para comandá-la, é ridícula e ingênua. Imagine uma torcida de marmanjos, arrumadinhos, muito bem-comportados, como se fosse um grupo de escoteiros, cantando e aplaudindo tudo o que os jogadores fizerem. Seria um ótimo tema para programas de humor na TV.

Outra bem-vinda conduta foi a do presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, ao dispensar o bom técnico Dorival Júnior, por não aceitar a redução de 50% dos salários. Os outros clubes deveriam fazer o mesmo. Dizem que Dorival e os principais treinadores brasileiros recebem em torno de R$ 700 mil por mês, uma quantia inacreditável e absurda. E ainda tem a enorme comissão técnica, que o técnico carrega para os clubes.

As análises das partidas costumam ser feitas a partir do resultado e da conduta dos técnicos. Essa supervalorização é a principal causa de tantas trocas. O treinador é sempre o culpado pela derrota, e há sempre a ilusão de que, com o novo técnico, será diferente.

Apesar da truculência e da mania de perseguição de Dunga, do discurso ufanista e religioso de Jorginho, os dois têm boas chances de se tornar ótimos treinadores. Assisti a todos os treinos, antes e durante a Copa de 2010. Eram melhores que os da maioria de outros técnicos badalados, que comandaram a seleção.

As maiores críticas a Ney Franco não são a alguns erros de escalação, substituição e à maneira de jogar do São Paulo. A maior crítica é ele não conseguir fazer com que Ganso jogue como um craque. Ganso, pelo toque e pelos passes bonitos e surpreendentes, tornou-se uma marca, símbolo da esperança de que preencheria o vazio, a falta de um grande craque no meio-campo do futebol brasileiro. Se Ganso não brilha, colocam a culpa mais no técnico do que nele.

Os grandes meias do passado, como Didi, Gerson, Rivellino, Ademir da Guia, Dirceu Lopes e outros, tinham muito mais mobilidade que Ganso, jogavam de uma intermediária à outra e participavam da marcação. A maioria das principais equipes atuava com apenas um volante e um meia-armador ao lado, uma mistura hoje de segundo volante e de meia de ligação.

O futebol de Ganso iludiu a todos. Em vez de continuarmos nessa ilusão, o caminho deveria ser o inverso, o da desilusão, de aceitá-lo apenas como um excelente jogador. Viver é se iludir e se desiludir.

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