Iluses ao mar

Carlos Chagas

Mais grave do que Dilma Rousseff haver trocado seu progressista programa de governo por outro insosso e inodoro, horas depois de apresent-lo no Tribunal Superior Eleitoral, saber porque a candidata promoveu a mudana. No que tenha inovado alguma coisa. O Lula est cansado de fazer o mesmo, desde 2002, quando nos palanques prometeu reformas de verdade e acabou escrevendo a tal Carta aos Brasileiros. Ainda h pouco assinou o Plano Nacional dos Direitos Humanos e depois rasgou, uma por uma, suas inovaes.

O triste, nesse episdio ocorrido na inaugurao da campanha eleitoral, que a candidata cedeu s mesmas presses que vem marcando o governo de seu patrocinador. Importa menos ter sido intermedirio Antnio Palocci, como representante das elites. Frustrante foi ver Dilma retirar do texto propostas como a taxao das grandes fortunas, a funo social da imprensa, a reduo da jornada de trabalho, o fim da criminalizao dos movimentos sociais e outras de igual significado.

Est em festa o andar de cima, cientes seus inquilinos de poder fazer com ela o que tem feito com ele, ou seja, impor a permanncia de seus privilgios. Ainda assim, passaram recibo atravs dos editoriais dos jornales, seus porta-vozes. Admoestaram Dilma por haver ousado apresentar o texto inicial, mesmo tendo sido retirado horas depois. Daqui a pouco estaro proibindo a ex-ministra at de pensar diferente deles. Se esse ensaio-geral exprime a pea a ser encenada pelo novo governo, no caso de vitria da candidata, melhor ser deitar ao mar as iluses, se algum ainda as possui.

Estar ou ser governo

Em janeiro de 1951, quando de sua segunda posse, ento eleito constitucionalmente, Getlio Vargas no se limitou a discursar perante o Congresso. A capital era no Rio e, deixando o plenrio do palcio Tiradentes, o novo presidente ocupou um palanque armado logo abaixo e falou para a multido. Dirigindo-se aos trabalhadores, disse que a partir daquele instante eles estariam no governo, mas acrescentou: Em breve sereis o governo.

Vaticnio igual poucas vezes se tem visto. Cinqenta anos depois elegeu-se presidente da Repblica um torneiro-mecnico, mas a pergunta que se faz se os trabalhadores so mesmo o governo. Pelo jeito, no, tantas as restries que ainda pesam sobre o trabalho. Ainda agora mobiliza-se o capital para impedir a aprovao de projeto reduzindo de 45 para 40 horas a jornada semanal. E quem d suporte negativa? O governo chefiado por um operrio…

A nova legislatura

Com exceo de um tero dos senadores, na teoria o Congresso inteiro poder ser renovado nas urnas, em outubro. Indaga-se qual o ndice de permanncia dos atuais parlamentares, j que quase todos se candidataro a um novo mandato. Nos ltimos anos a renovao tem sido pouco menor de cinqenta por cento, mas h quem suponha novidades, desta vez. O desgaste de Cmara e Senado parece ultrapassar os limites anteriores.

A pergunta se os que vo chegar sero iguais aos que vo partir. Porque o Congresso o retrato da nao. Nem melhor nem pior do que ela.

Do Mxico vem um exemplo. Na primeira metade do sculo passado, entusiasmados com sua revoluo mais recente, os mexicanos impuseram regra eleitoral obrigatria: no reeleciones! Ningum poderia ser reeleito para o mesmo cargo. Vieram os resultados, a euforia logo se desfez. Mesmo com novos personagens, o Congresso continuou igualzinho.

Cheiro de povo

Neste ms que antecede o incio da propaganda eleitoral gratuita pelo rdio e a televiso, e estando proibida a promoo comercial dos candidatos, a mente gil dos polticos criou um derivativo: ganhar literalmente as ruas. Dilma, Serra, Marina e os demais comearam a temporada das passeatas. Um dia sim, outro tambm, podem ser vistos no centro e na periferia das capitais e grandes cidades, acompanhados dos tradicionais papagaios de pirata, cumprimentando populares, tomando cafezinho nas padarias e beijando criancinhas. Despertam as atenes, claro. Pequenas multides se formam ao redor deles, telefones celulares tiram fotografias aos montes, a curiosidade transforma-se ilusoriamente em apoio. No h um candidato que no se sinta reconfortado e confiante na vitria.

Trata-se de oportunidade singular para todos, porque a partir de 17 de agosto estaro quase que exclusivamente nas telinhas e nos microfones. Dentro das casas, mas fora das ruas. Tomara que aprendam alguma coisa neste interregno urbano.


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