Imagem de Cristo pertence à história, não à Arquidiocese

Pedro do Coutto

Excelente, sob todos os aspectos, a recente reportagem de Felipe Werneck, O Estado de São Paulo, sobre os oitenta anos da inauguração do monumento do Cristo Redentor, que deu margem a mais um capítulo da polêmica a respeito de a quem pertencem os direitos da obra, reproduzida continua e eternamente.

Inaugurada em 1931, o prefeito do Rio era Pedro Ernesto, iluminada de Roma por Guilhelmo Marconi, inventor do rádio, foi construída pelo arquiteto Artur da Silva Costa, com base em desenho original do artista plástico Carlos Oswald. As mãos foram feitas pelo arquiteto francês Paul Landowsky. Herdeiros de Silva Costa e Landowsky disputam direitos de imagem. Mas a filha de Carlos Oswald, Maria Isabel Oswald Monteiro, 92 anos, não deseja nada, além da citação de seu pai. Ela parte do princípio de que a obra foi coletiva, não existindo um só autor, mas vários.

Entretanto, a Arquidiocese do Rio de Janeiro, agora tendo à frente o cardeal Orani Tempesta, colocou-se como detentora dos direitos, não autorais, mas de reprodução da imagem. Esta participação inclusive foi sustentada – revela Felipe Werneck – numa demanda judicial que herdeiros de Landowsky moveram contra a H. Stern, que produziu pingentes de ouro com a imagem de Cristo. Não sei por que neste momento me vem à mente o livro de Carlos Heitor Cony, “Informação Ao Crucificado”. No céu, para os religiosos, a maior figura da humanidade, o homem que dividiu o tempo entre antes e depois dele, deve estar informado do que se passa na Terra. E que o sinal da cruz, maior símbolo humano, é repetido mais ou menos um bilhão de vezes por dia. Sua imagem no nascimento e na cruz, é a mais pintada pelos artistas. O desfecho de Jerusalém constitui, ao lado do nazismo, a maior tragédia universal. Sua ressurreição, um enigma que desafia o tempo.

Divino por nascimento ou divinizado por eleição dos séculos, é símbolo eterno de dignidade humana, de respeito ao próximo, de justiça, de amor. De honestidade. O humanismo nasceu com ele e se eterniza nos seus passos, no seu símbolo.O catolicismo não. Daí porque sustento que sua imagem não pode pertencer a instituição alguma ou a pessoa nenhuma. O catolicismo que usou e usa sua imagem surgiu no mundo, pelas mãos do Imperador Constantino, através da ata de Milão, 305 anos depois de sua morte. O Protestantismo, também cristão como o catolicismo, surgiu cerca de 1 mil e 300 anos depois do imperador romano liberar o culto católico. (Os protestantes não possuem imagens).

Como se observa, tendo o passado como testemunha, os direitos da imagem do salvador deveriam, isso sim, se fosse possível, pertencer a seus descendentes diretos, se existissem como na versão de Dan Brown, (ficção literária), ou indiretos, como os herdeiros de seu irmão, Tiago, assim considerado pelos protestantes. Isso porque, para o protestantismo, depois de Jesus, Maria teria tido vida normal com José.

Na realidade não só dos séculos, mas dos milênios, não existe ao longo da história o uso unilateral da imagem de alguém como a praticou o Vaticano. Pois Jesus nasceu e morreu judeu na cruz romana de Tibério (imperador) e de Pilatos (governador de Roma) na Judeia dividida entre os invasores e os que resistiam à invasão. Jesus entre estes. Porém, havia os adesistas.

Cristo ficou sob as lanças cruzadas. Que se estenderam séculos afora, pois a Judeia nunca se rendeu totalmente, tanto assim que foi construída e reconstruída até o ano de 171 quando o imperador Adriano conseguiu expulsar os judeus da Palestina. A ela retornaram em 1948, maior viagem nas páginas da história.Por tudo isso, a imagem de Cristo não pode ser propriedade de ninguém. Pertence ao universo. Ao nosso, talvez a outro. Quem sabe?

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