Impossível calar o povo

Carlos Chagas

A desfaçatez não tem limites. Querem governar sem povo, não admitem que o povo se pronuncie. Fala-se da França, Alemanha e demais países ricos que acabam de pressionar o primeiro-ministro grego para suspender a realização do referendo onde a população se manifestaria a respeito das medidas de arrocho impostas pela União Européia e pelo FMI. Quer dizer, nações que se dizem democráticas exigem banir do berço da democracia o seu instrumento mais essencial, o pronunciamento popular. Mas tem mais e pior.

Por que pressionam a Grécia? Porque os gregos, em ampla maioria, repudiam a receita a eles enfiada goela abaixo, de combater a crise econômica com aumento de impostos, redução de salários e aposentadorias, demissões em massa e cortes nos investimentos sociais. Os ricos temem perder o referendo e, assim, pretendem suprimi-lo com ameaças da suspensão de sua ajuda financeira. Ajuda? Nem pensar. Empréstimos bancários que a Grécia precisará pagar a juros altos e em prazos restritos.

Convenhamos, assim não dá. Porque a crise econômica alastra-se pelo continente europeu, já chegou aos Estados Unidos e ameaça o resto do mundo. Para proteger a especulação financeira despojam os povos já sacrificados, cuja reação já começou. Na Irlanda, em Portugal, na Espanha e até na França as multidões ganham a rua, protestando. Impossível calar a sua voz.

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O SACRIFÍCIO DE MARTA

Sacrificou-se Marta Suplicy, acatando a determinação do Lula e de Dilma para não disputar a prefeitura de São Paulo. Uma evidência a mais do refrão popular de que “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Se insistisse, seria triturada no âmbito do PT, ficando sem legenda para concorrer. E se optasse por outro partido, a derrota seria inevitável. Defeitos, a senadora possui aos montes. Sua arrogância e ar de superioridade incomodam metade do Congresso. Mesmo assim, fica difícil justificar por que o Partido dos Trabalhadores acaba de negar-lhe o direito de apresentar-se numa prévia que só engrandeceria os companheiros. Derrotada, não teria o que argumentar. Vitoriosa, partiria para a luta. Afastada, mergulhará no ressentimento.

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INSISTÊNCIA JUNTO A SERRA

José Serra continua disposto a não disputar a prefeitura paulistana, mas suas convicções parecem meio esmaecidas, com a saída de Marta Suplicy da disputa. O ex-governador, pelas previsões, bateria Fernando Haddad. O governador Geraldo Alckmin lidera o grupo dos tucanos empenhados na candidatura Serra a prefeito, já que com isso estaria afastada a hipótese dele concorrer ao palácio dos Bandeirantes, deixando aberta a porta da reeleição. Do lado de lá da fronteira, em Minas, outro que reza pela candidatura Serra, ano que vem, é o senador Aécio Neves.

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A COMISSÃO DA VERDADE

Com o retorno da presidente Dilma ao Brasil, domingo, espera-se para a próxima semana a designação dos sete membros da Comissão da Verdade recém-aprovada em lei do Congresso e sancionada por ela. No Congresso, discute-se a possibilidade de deputados ou senadores pleitearem pelo menos duas nomeações, uma para cada casa. Não vai ser fácil, tendo em vista as representações partidárias.

Um representante do PT, por exemplo, seria olhado de viés pelos militares, mas alguém do DEM fatalmente desagradaria a turma da luta armada.

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