Inaceitáveis obviedades: tornamo-nos moralmente sedentários.

Percival Puggina

Recebo muitas mensagens eletrônicas apontando o farisaísmo de
quem critica a corrupção que vê e fecha os olhos para o extenso rol dos
próprios desvios diários de conduta. Certo, é farisaísmo mesmo. Essa
inquietante observação sobre os comportamentos individuais conduz, ademais, à conclusão de que não existem sociedades virtuosas. “Se as pessoas não o são, a sociedade tampouco o será”. Aliás, é esse lado obscuro da natureza humana que, entre outras coisas, torna necessária a existência da lei, dos poderes de Estado e da política.

O artigo poderia terminar aqui se as proclamações feitas acima fossem as únicas verdades a serem ditas sobre o assunto, mas não é o caso. Aliás, quanto mais a toalha da renúncia à virtude for jogada no tablado da cultura contemporânea e quanto mais isso for objeto de indiferença social, maior será a corrupção dos corruptos e o farisaísmo dos fariseus.

Chegará o dia em que, virado o fio, o vício se converterá em virtude e a virtude em vício. Não, não estamos longe disso, leitor, numa época em que o adjetivo “sacana” pega melhor que o adjetivo “virtuoso”. Ou não? E todos riem.
Que somos imperfeitos, sabemos. O que parece haver sumido das nossas reflexões sobre a sociedade é o fato de que somos “aperfeiçoáveis”. Assim como sempre podemos fazer melhor o que fazemos, sempre podemos ser melhores do que somos. Portanto, as sociedades jamais serão plenamente
virtuosas, mas nós, indivíduos, temos um compromisso moral com o nosso
aperfeiçoamento. O que se tornou saudável prática em relação ao
condicionamento físico sumiu dos procedimentos em relação ao caráter.
Tornamo-nos moralmente sedentários! Abandonamos os exercícios que envolvem a formação da consciência.

Eis aí, então, um dos mais graves problemas da sociedade contemporânea.
Podemos nos abraçar em muitos erros e vícios, mas fugimos das
decorrentes responsabilidades morais e, principalmente, do mais tênue
sentimento de culpa. Opa, culpa não! Culpa faz mal à saúde. No entanto, pergunto: como haver arrependimento e retificação das condutas sem que a consciência bem formada acuse o erro? Como corrigir o mal feito a outros sem que a percepção do erro, elaborada no plano da consciência, nos mobilize nessa direção? Em qual laboratório – que não no da consciência – pode nascer algo tão humano quanto o pedido de perdão?

Cuidado! São muito claros os sinais de que estamos nos alinhando nos viciosos degraus de uma escada pela qual apenas poderemos descer. Onde anda o hábito de examinar a consciência, de refletir sobre ações e motivações, de corrigir erros, de pedir e oferecer perdão, de buscar o bem e evitar o mal?

Todo esse percurso envolve etapas de ponderação e deliberação moral que, pouco a pouco, foram descartadas das práticas pessoais, familiares e, mesmo, religiosas. É como se a busca do bem tivesse deixado de ser saudável e o arrependimento fosse um desconforto a ser abolido do plano das consciências.

Quer ser impopular? Diga que há um desastre civilizacional em curso,  motivado pela corrosão dos valores da tradição judaico-cristã. Quer desagradar a muitos? Proclame ser escandalosa a conduta de uma sociedade
inteira que joga sua cultura e moralidade nos cínicos labirintos do relativismo até se extraviar totalmente de uma e de outra. E, depois, se queixa das consequências.

(Transcrito do jornal Zero Hora, de Porto Alegre)

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *