Inaugurando Foz de Chapecó, Lula sai consagrado do palco

Pedro do Coutto

Quando inaugurar a hidrelétrica de Foz do Chapecó, obra de Furnas, entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, na quinta-feira, o presidente Lula fecha as cortinas de seu governo e sai, consagrado pela opinião pública, do Palácio do Planalto, palco a que conduziu sua sucessora, Dilma Rousseff, vitoriosa nas urnas de Outubro.
Deixa um saldo bastante positivo de ações, tanto assim que, segundo pesquisa do IBOPE, recebe aprovação de 87%, recorde mundial, contra uma rejeição somente de 4%. Ele inaugura a usina Foz do Chapecó, capacidade para gerar 855 mil MW, de Brasília, através de circuito de televisão.

É uma obra do PAC, a última concluída por ele, cuja barragem tem 47 metros de altura. Custou 2,6 bilhões e o cimento utilizado seria suficiente para construir oito estádios do Maracanã. Mas estes são detalhes que singularizam o investimento que acrescenta geração de energia ao parque econômico brasileiro. O setor elétrico foi um dos pontos de destaque de seu mandato.

Mas eu disse que ele deixa o palco consagrado, ultrapassando sérios obstáculos como o mensalão, os aloprados de São Paulo, além de episódios como o causado por Erenice Guerra, bastante sério e de reflexos eleitorais. Não fosse Erenice, demitida da Casa Civil, Dilma teria vencido no primeiro turno.

O que explica tanto êxito de um presidente – coisa raríssima – registrado inclusive em seu crepúsculo? Fosse na alvorada, não seria de surpreender. Mas na saída de cena quando perde o maior instrumento de poder da vida humana – a caneta mágica – é porque, além do inegável carisma e simpatia, existem outros fatores decisivos.

Destacam-se três: o nível de emprego melhorou, os reajustes salariais foram restabelecidos ao nível da inflação, o crédito se expandiu e, com ele, o consumo. Chegamos assim a uma trilogia que sintetiza as aspirações humanas. O consumo é a chave final.

A sociedade, ao contrário do que pensou Karl Marx, não está preocupada com a produção de bens, nem com as diferenças na escala social. O gênio alemão, redator chefe da Gazeta da Renânia, que escreveu O Capital em 1869, livro mais vendido no mundo depois da Bíblia, cometeu um erro ao profetizar o futuro, embora seja, sem sombra de dúvida, o maior analista político da história.

É que os trabalhadores, na realidade, não desejam se revoltar: nada disso. Querem aderir, se capitalizar. Aliás, não existe pessoa alguma no planeta que não deseje se capitalizar. A força da capitalização é essencial e insubstituível. Até porque é ela que leva ao consumo.

Há poucos dias, almoçando com dois amigos, o cientista Zieli Dutra e o economista Filipe Campello, este colocou um tema importante. Indagou o seguinte: se a população acha ruim o sistema de saúde, péssimo nível de saneamento, abaixo da crítica a atuação do INSS, o caos a demora da Justiça em decidir definitivamente as ações, uma calamidade a segurança pública, um descalabro a atuação da máquina administrativa, porque consagra o presidente de modo absoluto? Para Filipe uma contradição. A dúvida leva ao pensamento.

Tem que haver para tudo uma razão. Esta se encontra na situação pessoal de cda um, de cada família, na altura relativa do consumo. Se houve descompressão nos salários e no crédito, o poder de compra melhorou – e melhorou mesmo – que La Nave Va, como no filme de Fellini. Não quero dizer que isso está certo. Mas é assim. Cada um por si e Deus por todos, como se afirma. Uma prova? As UPPS. Se a segurança melhorou, deixa para lá o consumo de drogas.

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