Incrível: a Justiça não sabe por que o anúncio na primeira página dos jornais é mais caro?

Carlos Newton 

Ora, qualquer estudante de jornalismo ou de publicidade sabe que a primeira página é  o retrato da edição de um jornal, razão pela qual deve ser bem diagramada, informativa e atraente.

Por ser também o espelho da edição é que os jornais só aceitam para publicação na primeira página anúncios de tamanho limitado (no máximo, um quarto de página). Cobram preços proibitivos, justamente para desestimular a veiculação de propaganda comercial nesse espaço nobre.

Diariamente, podem ser vistos anúncios nas primeiras páginas de conceituados jornais nacionais, como “O Estado de S. Paulo”, “O Globo” e “Folha de S. Paulo”,  e internacionais como “Le Figaro”, “International Herald Tribune”, “Le Monde”, “Corriere Della Sera”, “The Daily Telegraph” e outros.

Pois bem, entre 1968 e 1978, o jornal Tribuna da Imprensa, diariamente censurado pela ditadura, teve centenas de primeiras páginas de suas 3.050 edições violadas e adulteradas pela retirada de manchetes e de notícias consideradas impróprias pelos agentes  do regime militar, destacados para fiscalizar o jornal.

Com esse ilegal e violento procedimento, a Tribuna da Imprensa era obrigada a circular com grandes espaços em branco, o que acarretava o seu encalhe em todas as bancas. Afinal, quem iria comprar um exemplar desse jornal ou anunciar numa publicação canibalizada, com espaços em branco, decorrentes da implacável censura que sofria diariamente?

Em verdade, é  indescritível o prejuízo que essa perseguição acarretou à  empresa jornalística de Helio Fernandes. Seus editores, constrangidos por censores federais, nunca sabiam quais as matérias e manchetes de primeira página que seriam excluídas da edição e gerariam um “espaço em branco” no produto, tornando-o desinteressante e invendável.

Por isso mesmo, não seria nada exagerado que, no cálculo da indenização, pelo prejuízo arrasador que esses espaços em branco acarretavam à empresa jornalística, fosse adotado como parâmetro o mesmo preço de centímetro cobrado pela inserção de anúncios na primeira página, visto que a censura nessa página nobre punha a perder toda a edição pela inexistência de comprador, assim como afastava os anunciantes de modo geral.

Assim procedendo, com essa criminosa censura, a ditadura, exercida por aqueles que usurparam o governo da União Federal, buscou silenciar e aniquilar economicamente o jornal Tribuna da Imprensa, sem dúvida, o que mais resistiu e que mais lutou pela volta do país ao estado democrático de direito e à plena liberdade de manifestação.

Nesse quadro, com tranquilidade e isenção, cabe ao Poder Judiciário fazer justiça plena e corajosa, descartando a tese de que, por exemplo, o espaço em branco  na primeira página não seria indenizável, vez que a primeira página não se presta a veicular anúncio, mas somente a apresentar o resumo das principais matérias publicadas internamente. O que fazer, então,quando os espaços em branco foram motivados pela implacável CENSURA e impediram a publicação desse resumo logo na primeira página, comprometendo a edição inteira?

Eis a questão que a Justiça agora tem de resolver, no caso da indenização da Tribuna da Imprensa, que já se arrasta há 32 anos.

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