Indo e vindo, com se fosse uma sanfona

Luiz Tito
O Tempo

Interessante no Brasil, pelo ocorrido na semana passada, vermos como o óbvio assusta tanto. Primeiro a decisão da presidente Dilma de suspender a recriação da CPMF, que na sua vigência, em governos passados, contribuiu apenas para engrossar o caixa do governo e dos bancos, desses em especial, que nunca foram fiscalizados nem tampouco auditados no processamento de seu recolhimento. O governo nunca soube se os valores que lhe foram recolhidos são exatamente os mesmos devidos e arrecadados pela rede bancária. Não é verdade que se fiscalizavam os bancos e que os auditavam.

Insistentes denúncias da época alertaram o governo para a precariedade dos controles desses valores e essas nunca foram respondidas senão com evasivas, pela Receita e pelo Banco Central. Mesmo assim, sem demonstrar uma estrutura de controle da arrecadação e de sua destinação, com fidelidade aos propósitos de sua recriação, o governo, na sua fúria de arrecadar, colocou a ideia sobre a mesa.

Vivendo um momento a cada minuto mais grave na sua relação com a sociedade, com o Legislativo e com o Judiciário, Dilma preferiu o caminho mais confortável para quem tributa e arrecada e, assim, melhorar seu caixa. As empresas já não suportam mais um centavo de acréscimo à carga tributária; a economia dorme um sono profundo e o governo, que não conhece outros mecanismos senão o de tributar, propôs sua ideia. O resultado não poderia ter sido outro diferente do que se assistiu: empresários revoltados e o Congresso no mesmo diapasão. Quanta impropriedade, para não dizermos quanta burrice. E, pasmem, o governo ficou surpreso com as reações.

O CASO DE CUNHA

Outra curiosidade foi a sanfona em que se transformou a posição do senador mineiro Aécio Neves, pregando a renúncia do deputado Eduardo Cunha à presidência da Câmara, caso esse venha a se tornar réu no processo motivado pela denúncia formalizada pelo Procurador Geral da República, de seu envolvimento nas relações com a indústria de propinas do Petrolão.

As investigações da Polícia Federal e do Ministério Público colocam nos ombros (ou nos bolsos) de Eduardo Cunha a suspeita de o deputado haver recebido a bagatela de U$ 5 milhões para não prejudicar uma operação de locação de navios-sonda pela estatal. O MPF valeu-se principalmente das declarações do empresário que pagou a bolada e deu detalhes, que envolvem ainda a deputada Solange Almeida, do PMDB-RJ. A deputada assinou requerimentos de investigação de contratos da fornecedora Mitsui, a pedido de Cunha, para assim criar dificuldades. Trata-se tal suspeita do que comumente se configura como criar dificuldades para se venderem facilidades. Cunha, obviamente, nega.

O senador Aécio Neves, corretamente, alertou para a necessidade de afastamento de Eduardo Cunha da presidência da Câmara, o que desagradou ao próprio, ao PMDB e a amigos de outros partidos, inclusive do PSDB. Pressionado, esperava-se que Aécio viesse a público amenizar o tom de suas declarações, numa entrevista que iria ao ar na última sexta-feira a noite. Aécio cancelou, para não se colocar como leniente e dúbio.

Nessa sanfona, assim vamos, indo e vindo, falando e negando.

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