Inflação acrescenta valor econômico ao cálculo do PIB?

Pedro do Coutto

Acompanhei com atenção a matéria de Vinicius Mota, Folha de São Paulo de quinta-feira 29 de dezembro, procurando traduzir a explicação para apontar um avanço do Brasil na economia capaz de fazer com que ultrapassasse a coligação do Reino Unido no mapa estatístico universal. Nosso Produto Interno Bruto, na escala de 2,4 trilhões de dólares, seria hoje o sexto do mundo. Atrás dos EUA, China, Japão, Alemanha e França. Estranho.

Li a reportagem, mas não entendi. Isso porque o Fundo Monetário Internacional acentua um deflator brasileiro “implícito” da ordem de 138% de 2001 a 2010. E tal índice implícito (pensei de fosse explícito) teria sido o fator decisivo para a ultrapassagem colocada no contexto. Aguardo uma explicação mais lógica dos economistas, já que eles sempre assinalaram a inflação como um instrumento negativo para o desenvolvimento e, de repente, não mais que de repente, como disse o poeta, eis que a taxa inflacionária passa de freio a acelerador numa economia de transmissão automática de marchas.

Não compreendo como um deflator, mero regulador de valores, transforma-se, em nosso país, fizeram-no crescer tanto no espaço de apenas uma década. Mas não me afasto do esforço de perceber a expressão deflator implícito. O índice de 138% na década colide com as pesquisas do IBGE que assinala um peso maior para atualização monetária. Aponta 110% no período de FHC e 56% no espaço de Lula. É verdade que são 16 anos contra 10. Mas se a inflação é positiva num período tem que ser em outro. E isso não ocorreu.

No segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, a inflação seguiu seu ritmo, mas o PIB recuou. Tanto que a renda per capita diminuiu. O mesmo aconteceu no início do governo Lula. Até que em 2009 o PIB deu salto para a frente de 7,5%. Daí porque, inclusive, o salário mínimo subiu, a partir de janeiro, de 545 para 622 reais. Entretanto, a questão não é apenas essa.

Economistas de pensamento ortodoxo como Eugênio Gudin, Roberto Campos, Mario Henrique Simonsen e Delfim Neto, para ficar apenas neste elenco, jamais aceitariam (Delfim ainda está vivo) tal fator como capaz de acelerar a economia. Pelo contrário. Sempre identificaram um peso extremamente negativo em taxas inflacionárias altas.

O new look do FMI, se remetido ao passado, consagraria extraordinariamente o governo Juscelino Kubitschek, uma vez que nos anos de 59 e 60, principalmente, a taxa elevou-se a 29 e 30%, respectivamente. Estava esquecendo de citar Lucas Lopes, ministro da Fazenda em 59, até ser substituído por Sebastião Paes de Almeida.

Hermógenes Príncipe narra em seu livro sobre JK, do qual redigi o prefácio por indicação do economista Gilberto Paim, que Roberto Campos e Lucas Lopes, por causa da inflação que causava, propuseram ao presidente da República paralisar a construção de Brasília. Era a recessão, que viria depois do rompimento de Juscelino com o FMI em ato público nos jardins do Palácio do Catete. JK demitiu ambos.Roberto Campos e Lucas Lopes formavam no bloco do monetarismo: primeiro sanear a moeda, depois desenvolver o país e distribuir a renda.

Anos depois, Delfim Neto assumiu a mesma trilha, governo Médici, quando defendeu a incrível tese de que primeiro deve-se fazer crescer o bolo para depois dividir os pedaços. Essa não. Após o bolo crescer, seus donos não dividem nada. Este é um fato inegável da vida. Quem esperar reciprocidade e meta de justiça social fica sozinho na estrada. Mas esta é outra questão.

O fato essencial, lendo Vinicius Mota, é que o FMI mudou de pensar. Porquê? Qual a razão efetiva dessa espécie de new deal de Franklin Roosevelt. Há de haver alguma. Um interesse muito forte em alavancar o Brasil. Tomara que esse interesse coincida com o nosso.

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