Inflao atinge 6,5; aluguis e casa prpria sobem 10,6%

Pedro do Coutto

Os ndices encontram-se diariamente nas pginas de O Globo, Folha de So Paulo, O Estado de So Paulo, os trs principais jornais do pas. Enquanto o IBGE aponta, para os ltimos doze meses, de abril de 2010 a abril deste ano, portanto, uma taxa inflacionria de 6,5%, o IGPM da Fundao Getlio Vargas, indexador automtico dos aluguis e das prestaes da casa prpria, acusa oscilao da ordem de 10,6% sobre o mesmo perodo. Estes 10,6%, assim, incidem sobre os contratos anuais de aluguel e tambm atualizam as prestaes dos financiamentos imobilirios, os que esto dentro do Sistema Nacional de Habitao. Para os que esto fora do programa do governo, as correes so ainda mais elevadas.

Como os reajustes salariais, a partir do governo Lula, regra mantida pela presidente Dilma Roussef, acompanham a inflao oficial, v-se que a tarefa insubstituvel de morar torna-se cada vez mais difcil. Uma aventura, um risco. Basta confrontar os indicadores. E necessrio que os inquilinos e muturios consigam obter mais um outro emprego ou outra atividade adicional, dentro da lei, claro. Pois mantido o desequilbrio que estou apontando, no espao de dois a trs anos, a inadimplncia, que j sensvel, vai subir mais.

No h outra hiptese. O governo Dilma deve mudar o esquema em vigor. E restabelecer o critrio da equivalncia salarial. Tem que levar em conta que no mais Delfim Neto, com os expurgos inflacionrios, quem se encontra no Ministrio da Fazenda. Ele hoje escreve artigos semanais na Folha de So Paulo sobre o universo econmico propondo solues que colidem frontalmente com sua atuao nos governos Costa e Silva e Mdici. Mas esta outra questo.

O fato predominante a impossibilidade que se coloca para grande parte dos locatrios e muturios de poderem manter em dia o pagamento das obrigaes em face da defasagem de seus salrios diante do nvel do IGPM da Fundao Getlio Vargas. Tanto assim que em reportagem publicada em O Globo de quinta-feira 12, Rafael Galdo e Rogrio Daflon focalizam a elevao da inadimplncia nos conjuntos residenciais do programa habitacional para os grupos sociais de menor renda. A grande maioria dos muturios, portanto.

Diante dessa realidade, para onde foi a classe mdia descoberta pelo professor Marcelo Neri, cuja remunerao mensal de 3 salrios mnimos? No real, como h pouco meses acentuaram Miriam Leito, em O Globo, e Clovis Rossi na Folha de So Paulo. A contestao que fao ao critrio de Neri, colocada tambm por Miriam e Rossi, tem suas razes confirmadas no trabalho da jornalista Marcia de Chiara, O Estado de So Paulo, edio do dia 10. Com base em pesquisa feita pela empresa Kantar Wordpanel, sob encomenda da Associao Paulista de Supermercados, ela destaca que metade das famlias brasileiras gasta mais do que ganha mensalmente.

A explicao encontra-se na flexibilidade do crdito que mantm aquecido o nvel de consumo. No ano passado, foram realizadas compras no montante de 201,6 bilhes de reais em todos os supermercados brasileiros, no s nos de So Paulo. Duzentos e um bilhes so praticamente 23% da massa salarial do pas no perodo de doze meses.

A mdia de remunerao das 58 milhes das famlias brasileiras, em 2010, alcanou 2 mil e 146 reais por ms. A despesa foi alm: 2 mil 171 reais. As classes A e B tiveram supervit da ordem de 2%. A classe C, apontada como emergente, acusou dficit de menos 2%. Ficou no prejuzo. Sua mdia salarial foi de 1.840 reais para uma despesa de 1.883. O dficit das classes D/E foi de 6%: 1.150 contra 1.222 reais. Como na bela poesia de Vinicius de Moraes, quem vive em dficit mensal precisa de vento sem parar.

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