Inflar Haddad sem esvaziar Russomanno?

Carlos Chagas

Dedica-se o governo federal a inflar a bola de Fernando Haddad, numa orquestração cujo maestro, sem sombra de dúvidas, é o ex-presidente Lula. Vem de algum tempo a nomeação que não deu certo, do senador Marcelo Crivella para ministro da Pesca, já que seu partido, o PRN, não cedeu à pressão do PT e permanece fechado com Celso Russomano. Nova tentativa para reforçar o candidato se fez quinta-feira com a posse de Marta Suplicy no ministério da Cultura.

Lula dá força total

E mais: o súbito reajuste dos milhares de servidores públicos sem concurso, os DAS, em até 25%. A redução nos preços das tarifas de energia elétrica. A cooptação de Eduardo Campos, do PSB, na candidatura Haddad. A presença da presidente Dilma nas telinhas e nos palanques do partido. Recursos financeiros superiores aos dos demais postulantes à prefeitura paulistana. E novas surpresas previstas para esta semana e as próximas. O governo federal decidiu jogar seus cacifes na eleição em São Paulo.

Indaga-se a respeito do reverso da medalha. Porque não basta fazer Haddad crescer e disputar o segundo turno. Tão importante quanto esse esforço será atingir Celso Russomanno, mesmo se for abaixo da linha da cintura. Pode ser que a munição pesada fique para o segundo turno, se o companheiro chegar lá.

Até agora, só a Igreja Católica disparou mísseis sobre o favorito, chegando o arcebispo de São Paulo a supor a democracia ameaçada no caso de sua vitória. A briga envolve a Igreja Universal, até agora travada em termos teológicos, mas subitamente transferida para a arena político-eleitoral. É de se prever o PT reunindo munição, mesmo sob o risco de as igrejas evangélicas blindarem o candidato, como aliás já vem fazendo.

Em suma, aproxima-se o acirramento dos ânimos, numa guerra sem quartel. Haddad ainda se encontra atrás de José Serra, nas pesquisas, mas o tucano poderá muito bem ficar entre dois fogos e não resistir no segundo lugar.

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DIFERENÇAS FUNDAMENTAIS

Agora que vão começar a ser julgados grandes nomes do PT, seria bom estabelecer certas diferenças. Não dá para o Supremo Tribunal Federal aplicar os mesmos critérios para José Genoíno e José Dirceu, por exemplo. Pelas acusações, o ex-chefe da Casa Civil era o chefe da quadrilha. Supostamente traçou todo o roteiro para que dinheiro público fosse amealhado, junto com falsos empréstimos bancários, para distribuição entre parlamentares dispostos a vender seus votos na Câmara dos Deputados. Teria estado no começo, no meio e no fim do mensalão.

Já Genoíno presidia o PT, endossou papagaios descontados no Banco Rural, mas não participou diretamente da lambança executada pelo tesoureiro Delúbio Soares. Jamais encontrou-se com Kátia Rabello e não conhecia Marcos Valério. No caso de ser punido, será por sua assinatura, quem sabe até por ignorar o que se passava à sua sombra, mas não por envolvimento na trama.

Basta comparar seu modo de vida, funcionário do ministério da Defesa pela necessidade de manter um salário, morador num apartamento de classe média baixa e sem nenhuma das ostentações de seus companheiros de infortúnio. Muito menos dedicou-se, nos últimos anos, a prestar consultoria a potentados econômicos, sequer a pronunciar palestras remuneradas a preço de ouro.

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DUAS PEDRAS NO MEIO DO CAMINHO

Parece inegável a perda de densidade política de José Serra, mesmo ainda posicionado para disputar o segundo turno, mas correndo o risco de ser ultrapassado por Fernando Haddad. A conseqüência, ainda que política pareça um caleidoscópio, está sendo o esvaziamento de suas possibilidades de tornar-se candidato dos tucanos à presidência da República, em 2014.

Melhor para Aécio Neves, ainda que uma segunda pedra permaneça nomeio de seu caminho, por enquanto impossível de ser afastada. Chama-se Geraldo Alckmin, que conforme seguidos depoimentos de seus correligionários, mantém acesa a chama da esperança de concorrer outra vez. Mesmo diante da reeleição no governo de São Paulo tida como provável, faz da candidatura presidencial seu objetivo maior. Espera-se que não leve a disputa para um confronto entre São Paulo e Minas.

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