Injustificável culpar as crianças pelo déficit de atenção

O estado precário desta escola em Alagoas confirma tudo

Cristovam Buarque
O Globo

A pedagogia brasileira considera como doença o déficit de atenção dos alunos, sem perceber o déficit de atenção dos governantes com a escola e seus alunos. Impossível uma criança não sofrer déficit de atenção em aula para turmas diferentes na mesma sala, dividida por meia-parede, às vezes por um simples móvel entre duas ou mais turmas; ou em uma sala de aula deficiente, com bancos desconfortáveis onde os alunos se sentam.

Os baixos salários dos professores e suas constantes greves são déficit de atenção dos governos com a educação e provocam obviamente déficits de atenção das crianças nos seus estudos. Difícil não haver déficit de atenção do aluno quando o professor usa quadro-negro no lugar de lousas inteligentes e outros equipamentos de tecnologia da informação para crianças da era da informática e dos celulares, nascidas no século XXI.

Injustificável jogar sobre as crianças a razão do déficit de atenção que elas têm. Apesar disso, tratamos o problema do déficit de atenção das crianças como um problema biológico, de hormônios; psiquiátrico, de desajustes; ou mesmo neurológico, de disfunções. O déficit de atenção é do Brasil para com elas, ao não lhes oferecer as condições ideais em boas salas de aulas, climatizadas, bem equipadas, com professores muito bem remunerados, preparados e motivados.

UM DÉFICIT ENORME

A escola é um exemplo, mas não é apenas em relação a ela que o Brasil padece de déficit de atenção. O país tem déficit de atenção para com suas florestas, seus rios, suas cidades, seus pobres. As doenças endêmicas que molestam milhões de brasileiros por ano, o descuido com os sistemas preventivos e o abandono dos hospitais são o resultado do déficit de atenção com a saúde pública. As mortes no trânsito ou por violência também seriam evitadas se o Brasil não tivesse déficit de atenção; cada ano, acidentes com deslizamentos de encostas seriam evitados com um pouco de atenção. Há déficit de atenção quando fazemos projetos de infraestrutura sem reservar os recursos necessários, nem cuidamos da qualidade da obra, e especialmente quando não impedimos corrupção de sobrepreços e propinas.

O próprio déficit fiscal, além de crime de responsabilidade, é também um déficit de atenção dos governos com o valor da moeda.

Nossa preferência pelo consumo no presente, sem preocupação com poupança para o futuro; a opção pelo ensino superior, deixando de lado a educação de base; o desprezo à ciência, à tecnologia e à inovação são decisões tomadas com déficit de atenção ao país. As políticas dos governos brasileiros e o comportamento de nossa população se caracterizam por déficits de atenção.

O Brasil padece de déficit de atenção, e a culpa não é das crianças. Como cada criança não aprende por déficit de atenção no estudo e compromete seu futuro pessoal, o Brasil compromete nosso futuro nacional por déficit de atenção com seus problemas.

(artigo enviado pelo comentarista Mário Assis Causanilhas)

5 thoughts on “Injustificável culpar as crianças pelo déficit de atenção

  1. Insuportável este homem com a mesma conversa sempre.
    Tudo é o governo. Oxe, o cara é senador. O sujeito já foi ministro da educação. O que fez pra mudar a educação? Causa sem ação é hipocrisia. Quer sensibilizar as elites com este discussozinho ridículo pra arrecar fundos pra próxima campanha? Sim, a elite também é hipócrita: não tá nem ai pra nação e fala em causa social. Não existe isso. Estudar é pra quem tem coragem de sentar a bunda na cadeira e ler um livro, resolver questões. Estudar não é tão fácil quanto ficar horas no Facebook, anos no zapzap. Estudar doi. O conhecimento não vem de graça. Ah, mas os professores ganham pouco… Então deviam ganha quanto? Do tanto de um senador? Se merecer tudo bem, que ganhe até mais. Mas a maioria dos professores são uns irresponsáveis também. A maioria dos professores entra na sala de aula desejando que a aula acabe. A maioria dos professores preferem passar trabalhinho pros alunos do que ir pra lousa e ensinar. A maioria dos professores não têm moral pra nada, não têm moral pra reclamar. Dessa vez digo maioria não digo unanimidade como digo com políticos por que ainda tenho gratidão por meia dúzia de professores meus.

  2. O senador Cristóvam Buarque, sai de sua competência como político e faz um artigo onde fala besteira e desinforma os pais, já que o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) não tem sido informado pelo Ministério da Saúde à população, embora seja um problema de saúde pública. O Transtorno do Déficit de atenção é uma doença grave, e muitos pais, por ignorância acham que o filho é preguiçoso, rebelde, não poucas vezes recebe castigo e não são encaminhados para tratamento especializado, o que vai prejudicar o aprendizado e a vida do sujeito para toda a sua vida.

    O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade é caracterizado por um alcance inapropriadamente fraco da atenção, em termos evolutivos ou aspectos de hiperatividade e impulsividade ou ambos, inapropriados à idade. O diagnóstico é feito pela confirmação de numerosos sintomas no âmbito da desatenção ou da hiperatividade, ou ambos. É uma doença que acomete todas as classes sociais, não sendo mais comum em crianças pobres. Ricos e pobres têm filhos com déficit de atenção na mesma proporcionalidade. É um inferno para os pais.

    A incidência do Transtorno de Déficit de Atenção atinge 5% de todas as crianças, meninos e meninas. Não tem causa conhecida, embora se especule que traumatismos de parto possam predispor a criança a este transtorno. Todavia, esta informação é relativa, porque crianças com déficit de atenção apresentam com mais frequência familiares com déficit de atenção, o que faz pensar que há um fator genético.

    Esta doença vai ser notada pelos pais e professores (quando estão informados) quando a criança começa na escola e não conseguem seguir instruções e frequentemente exigem atenção extra de seus professores. Em casa, frequentemente não completam as tarefas solicitadas pelos pais. Elas tendem a agir impulsivamente, demonstram instabilidade emocional e são explosivas e irritáveis.

    As crianças que têm a hiperatividade como característica predominante tendem mais a serem encaminhados para tratamento do que as crianças cujos sintomas principais são de déficit de atenção.

    Os transtornos envolvendo leitura, aritmética, linguagem e coordenação podem ser encontrados em associação com o TDAH. A história escolar e relatos dos professores são importantes para a avaliação acerca das dificuldades das crianças na aprendizagem e no comportamento escolar, anormais por serem decorrentes primariamente de suas atitudes ou problemas de amadurecimento ou à sua fraca auto-imagem em vista de inadequações percebidas.

    O distúrbio tem início na infância. As crianças são excessivamente sensíveis a estímulos e facilmente perturbadas por ruídos, luz, temperatura o outras alterações ambientais. É mais comum que sejam ativas no berço, durmam pouco e apresentem choro aumentado.

    Dificuldades emocionais concomitantes são frequentes. O dado de que outras crianças abandonam este tipo de comportamento, e as hipercinéticas não o abandonam no mesmo tempo e ritmo, a variabilidade de seu desempenho (são crianças que não conseguem aprender na escola e repetem de ano sucessivamente) e o incômodo e inexplicabilidade geral de seu comportamento, levam à insatisfação e a pressão por portadores adultos. O autoconceito negativo resultante e a hostilidade reativa são piorados pelo frequente reconhecimento da criança de que há algo de errado com ela.

    Esta doença não se cura sozinha. O governo federal, o SUS, deveria informar isso à população de pais, assim como faz campanha contra a gripe. Não o faz porque são governos safados, negligenciam verbas para a saúde, e se propagassem que há esta doença teria de treinar e contratar profissionais especializados para o SUS, uma vez que a criança terá de ser acompanhada durante anos por um neuro-pediatra, precisa fazer uso de Anfetamina (no Brasil temos a Ritalina). Só um dado para conhecimento de todos: os motoristas de caminhão tomam anfetaminas (as chamadas “bolinhas” para não dormir à noite, porque a droga corta o sono), mas a anfetamina nas crianças com TDAH os acalma, melhora o sono, melhora a atenção, melhora a hiperatividade. Mas o medicamento não é tudo. Além do acompanhamento do neuro-pediatra, essas crianças vão também precisar de acompanhamento semanal (duas vezes por semana) com psicopedagogas treinadas em tratar TDAH. Se tudo correr muito bem, numa criança cujo TDAH foi descoberto aos 6 anos de idade, embora esta criança vá melhorando paulatinamente com o tratamento, a doença é para o resto da vida, e só será mitigada, capacitando o doente de ter uma boa vida de relações lá por volta dos 20 anos de idade.

    Existem associações de pais para intercâmbio e ajuda de crianças com TDAH, uma delas é a ABDA, que pode ser encontrada na internet, e prestam um serviço inestimável aos enformos. No site da ABDA a associação explica quanto que o Brasil (e não este governo safado) gasta com o TDAH :

    BRASIL GASTA MAIS DE R$1,8 BILHÃO POR TRATAMENTO INADEQUADO AO TDAH

    Em franco desacordo com a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), não há política governamental brasileira para tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH): o metilfenidato, um dos mais conhecidos, mais eficazes e mais baratos medicamentos só pode ser obtido na rede pública através de processos legais (ações judiciais) ou complexos processos administrativos.

    Uma pesquisa realizada em 2005 no estado de São Paulo envolvendo todas as doenças para as quais são realizados processos legais para garantir tratamento, verificou-se que o TDAH era a única dentre as 27 doenças encontradas para as quais não havia nenhuma política pública de tratamento.

    Leia na íntegra

    QUAL O PAPEL DOS PROFESSORES PARA O DIAGNÓSTICO DO TDAH?

    Escrito por: Gabriel Coutinho

    Neuropsicólogo do Centro de Neuropsicologia Aplicada (CNA) e Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR)
    Professor do Centro Universitário Celso Lisboa (UCL), além de membro das diretorias da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia (SBNp) e Associação de Terapias Cognitivas do Rio de Janeiro (ATC-Rio)

    O Transtorno do Déficit de Atenção/ Hiperatividade (TDAH) é um transtorno do desenvolvimento caracterizado por sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade, que podem se associar a comprometimento funcional amplo, incluindo vida acadêmica, social, familiar, entre outras áreas. Os critérios propostos pelo sistema DSM-5 – assim como no antigo DSM-IV – exigem que os sintomas estejam presentes em diferentes ambientes para que o diagnóstico seja realizado (Associação Americana de Psiquiatria, 2014). Apesar de notícias equivocadas e opiniões sem embasamento científico, a maior parte dos indivíduos com TDAH em nosso país continuam sem receber o tratamento adequado (Mattos e cols, 2012). Como todo problema complexo, existem diferentes razões para a dificuldade de identificar indivíduos com o transtorno, porém neste artigo concentraremos esforços em apenas uma das possíveis soluções este problema.

    O TDAH É SUBTRATADO NO BRASIL

    Escrito por: Prof. Dr. Paulo Mattos (UFRJ), Prof. Dr. Luis Augusto Rohde (UFRGS), Guilherme Polanczyk (USP)

    A crescente conscientização acerca do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), seja relacionada às campanhas financiadas por associações médicas, grupos de autoajuda ou empresas farmacêuticas, está associada a um desejável aumento progressivo no número de pacientes diagnosticados e tratados. Há, entretanto, preocupações acerca do tratamento excessivo, particularmente em crianças e adolescentes. Essas preocupações são muitas vezes conduzidas pela mídia, de maneira alarmante…

    O Ministério da Saúde tem sim, que deixar de esconder do público que esta doença existe, que é grave e incapacitante, e prover os meios para que o SUS venha a ter equipes de profissionais em todo o Brasil para tratar esta doença cruel.

    E o senador Cristóvam Buarque, ignorante no assunto, escreve este artigo para falar besteira e desinformar ainda mais a população, o que é um péssimo serviço público (ou um desserviço) ao povo brasileiro.

  3. Parabenizo efusivamente o comentário acima do dr.Ednei Freitas, que comprova o porquê de eu definir este blog como incomparável!
    Abordando um tema que exige ser analisado por um especialista, também demonstra o pouco caso das autoridades com relação ao TDAH, pois é mais fácil culpar a criança que assumir a culpa e negligência relativas a esta doença.
    Muito obrigado pelo esclarecimento a respeito, dr.Ednei Freitas, cuja presença neste espaço democrático mesmo em defesa do seu PPS deve ser elogiada em face da importância de seus textos, principalmente quando os assuntos abordam matérias que lhe diz respeito, e somos devidamente informados e esclarecidos sobre tais males, mediante seus conhecimentos e disposição em nos orientar, motivo pelo qual reconheço a sua boa vontade e interesse para que a verdade venha à tona sempre.

    • Obrigado, Francisco Bendl. Suas palavras são de estímulo para mim. E sim, que a verdade venha à tona sempre, em todos os assuntos, mesmo que algumas vezes nós, escaldados, duvidemos dela. Mas ela há de se impor com o debate democrático que estamos travando. O óbvio é, de longe, a verdade mais difícil de ser percebida. Difícil, mas não é impossível.

      Um abraço,

      Ednei

  4. É lamentável, quando assistimos reportagens de alunos no lugares mais distantes, querendo aprender, em escolas improvisadas, debaixo de árvores ou em salas de aula sem nenhuma infraestrutura mínima, tendo que andar de barcos correndo perigo de vida, pois muitos não sabem nadar ou em ônibus precário, andando vários quilômetros por horas, tudo isto é muito triste, em pleno século 21 ainda há a irresponsabilidade de governantes medíocres, seja do governo federal, estadual ou municipal, todos querem os poderes para enriquecerem, não dão a mínima, querem um cidadão ignorante para continuarem enganando o povo, até quando estes desmiolado irão ignorar que a educação forma cidadãos, é preciso terem a responsabilidade de que a educação é o meio para tirar das ruas a criminalidade, para diminuir a pobreza, mas preferem continuar ignorando o que é a EDUCAÇÃO DE UM PAÍS,

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