Insensibilidade a causa do corredor da morte na sade

Pedro do Coutto

Sem dvida fantstica, tanto pela ideia, quanto pela pesquisa e contedo, a reportagem de Daniel Brunet, O Globo, manchete principal da edio de 16, sobre a insensibilidade repugnante que envolve as aes da Sade Pblica no Rio de janeiro. Causa principal do corredor da morte que o reprter classifica como a pior e mais forte imagem para definir o que se passa nos hospitais do estado, especialmente na fila de espera pelo acesso aos Centros de Tratamento Intensivo. Em mais de oito casos dirios fatais, vspera da tragdia continuada corredor da morte como aquele que, nos EUA, separa os condenados de sua execuo. A diferena, entretanto, essencial: os presos sentenciados cometeram crimes, os pacientes cariocas e fluminenses crime algum cometeram.

Criminosos so os que, por ao ou omisso continuada, lhes negam o direito ao atendimento. No gratuito. Os atingidos por doenas graves e males sbitos pagam impostos. O Globo, anunciou Brunet, vai prosseguir na srie. Espera-se que o mdico Sergio Cortes, secretrio de Sade, no fique em silncio. Sua posio desconfortvel. Ainda por cima, como jornais publicaram, embora parea incrvel, ele teve seu nome cogitado para substituir Jos Gomes Temporo no ministrio. No ministrio da Sade.

O problema, gravssimo, no s do Rio de janeiro. do pas. H dcadas que os jornais, rdios e emissoras de televiso ressaltam o panorama trgico que envolve os sistemas de atendimento pblico. Uma vergonha, como costuma afirmar Boris Casoy. Uma vergonha que, diante da repetio diria das falhas, no se tenha tomado providncias concretas. Est faltando sobretudo respeito dignidade humana. O atendimento eficaz, pelo que estou informado, proporcionado pelo Hospital Miguel Couto, que alis municipal, constitui uma exceo. A regra horrvel.

Daniel Brunet acentuou que a mdia de bitos, em vez de baixar, aumentou 32% nos ltimos anos no estado do Rio de Janeiro, portanto ao longo do governo Sergio Cabral. Os dados so irretorquveis. O levantamento foi fornecido pela prpria Central de Regulao de Leitos nos CTI. Um rgo oficial da Secretaria de Sade, cuja direo no deve ter suportado a poltica de falta de investimentos produtivos. A omisso, a poltica do deixa para depois, que eu resolvo. Alis uma posio rotineira no Brasil.

O dficit (dirio) de 510 leitos. Secretaria (de Sade) anunciou a O Globo mais 234 apenas e mesmo assim at o ano que vem. No final de setembro, 200 pacientes encontravam-se na fila por uma vaga. Resultado: muitos desistiram. De espera. Talvez tenham desistido de viver. A desateno social atingiu o auge. Mas nos filmes da campanha eleitoral estava tudo funcionando perfeitamente. Uma iluso. Some-se a todo esse descalabro a incidncia de diagnsticos errados agravando substancialmente o panorama envolto pelas sombras da desiluso e da morte.

Porm so realizados os simpsios, os seminrios de sempre, os painis ilustrados, tendo como convidados o governador e o ministro da Sade. Copos de couro elegantes com lpis bem apontados, blocos de papel de qualidade, belos slides a cores, copos dgua gelados, cafs preparados servidos com biscoitos. Fala-se como sempre sobre o nada, a respeito do que ser feito proximamente. Nada disso interessa. O essencial construir algo concreto, uma nova realidade no atendimento populao. Ela paga indiretamente por tudo isso e vota tambm. E morre em consequncia da falta de resposta a seu grito desesperado. A inrcia demais.

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