Intransigência da ECT, por quase nada, causou um prejuízo enorme

Pedro do Coutto

O Tribunal Superior do Trabalho, reportagem de Renato Machado, Folha de São Paulo de 12 de outubro, determinou à Empresa de Correios e Telégrafos, estatal que emprega 110 mil servidores, a concessão de quase o mesmo aumento pleiteado pelo sindicato da categoria. Reposição inflacionária de 6,8%, mais 80 reais e um tíquete extra de alimentação no valor de 575 reais.

O pessoal dos Correios concordava com os 6,8%, porém pediam aumento de 100 reais e abono de 800 reais. O presidente da ECT, Wagner Pinheiro, do PT, propunha aumento real de 50 reais. E negava o abono de 800. É só confrontar a decisão do TST com a proposta sindical para se verificar ser mínima a diferença. Nada que justificasse, de parte do governo, levar a uma greve de 28 dias. Como assinalou inclusive Joelmir Beting, no Jornal da BAND, poucos dias atrás, nota zero para a ECT em matéria de conduzir a questão trabalhista.

Os prejuízos foram enormes para a população e para a própria economia nacional. Financeiramente para a ECT, de 560 milhões de reais (20 milhões por dia); para a economia nacional a retenção de 184 milhões de correspondências, incluindo encomendas. Para o governo, desgaste político desnecessário.

A ECT irritou 105 mil eleitores por uma diferença irrelevante. Sobretudo no momento em que por lei, foi transformada em empresa pública, portanto obtendo autonomia administrativa. Acarretou uma freada na economia. Mas acrescentou aos bancos, uma vez que as contas pagas com atraso vão sofrer a incidência de juros. Um absurdo, um desconforto, um constrangimento. Perderam quase todos. Sem motivo concreto de peso, na verdade.

 Faltou sensibilidade. O que nós não sabíamos ser tão alto, mas a ECT tinha pleno conhecimento, era o movimento diário de praticamente 6 milhões de correspondências de todos os tipos. Tanto assim que em quase 30 dias o volume acumulado de remessa atingiu 184 milhões de unidades. Em torno, portanto. de 200 milhões por mês ou 2,4 bilhões a cada doze meses. É só fazer a média mensal e considerar que o total de cartas e cartões cresce muito em dezembro.

Um mercado de 2 bilhões e 400 mil correspondências por ano não é nada pequeno. Aproxima-se inclusive, apesar da presença da internet na comunicação, do total registrado anualmente nos Estados Unidos. Lá são 2,7 bilhões de correspondências por ano, mas a população americana é de 300 milhões de habitantes, 35% maior que a brasileira. Em média, em correspondência per capita, estamos à frente dos Estados Unidos.

Em matéria de empregos, a ECT só perde entre nós, para o funcionalismo público e para a Petrobrás. Situa-se em terceiro lugar, empatada com o Banco do Brasil.A reportagem de Renato Machado (homônimo do apresentador do Bom Dia Brasil da Rede Globo), indiretamente, acentua a forte presença da comunicação escrita embora a rede de informática avance a cada dia.

Mas há limitações para tal avanço. Um deles o sogilo das informações remetidas. Colocar certo tipo de informação seja pessoal, comercial ou industrial na rede, pode significar um acesso a ela inconveniente sob todos os aspectos, ou então o rompimento de um sigilo indispensável. Informações sobre técnicas patenteadas, por exemplo. Ou a respeito de cadastros empresariais e pessoais. Cadastros pessoais que alimentam as redes insuportáveis de telemarketing.

Além da intransigência patronal de sempre, a greve na ECT serviu para revelar à opinião pública que as coisas não são nunca tão simples como parecem à primeira vista.

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