Investimentos dependem do consumo. E o consumo, do nível de emprego.

Pedro do Coutto

Reportagem de Mariana Carneiro, Folha de São Paulo, com base em observações de David Kupfer, da UFRJ, e de Bráulio Borges, da ICA Consultores, focaliza a redução dos investimentos públicos e privados no país este ano, em relação a 2010, e assinala que o fenômeno está impactando (negativamente) a economia.

Claro. Sem investimentos não há desenvolvimento. Mas para que haja campo possível para se investir é essencial que exista perspectiva de consumo, já que empresa alguma privada vai aplicar para estocar produtos. Porém, para que o consumo seja aquecido, de outro lado  torna-se fundamental que o nível de emprego seja positivo e que os salários, pelo menos, não percam para a inflação do IBGE.

Foi o que aconteceu em larga escala no período Fernando Henrique. E o que não ocorreu na era Lula. Daí o segredo de sua popularidade. Não existe outro. Enigma básico, inclusive, a ser enfrentado pelas oposições nas urnas municipais de 2012 e nas urnas estaduais e federais de 2014. A  dificuldade do PSDB, agora liderado abertamente por Aécio Neves, é justamente a de conseguir formular uma proposta social mais avançada que a da presidente Dilma, herdeira dos votos de Luis Inácio. Digo dificuldade porque para isso os tucanos necessitam ir além do PT. Mas como ir além, sem quebrar o compromisso conservador que a legenda representa? Este é o X do problema, para lembrar o grande Noel Rosa.

Os investimentos em 2011 – acentua Mariana Carneiro – ficaram aquém do esperado e do nível adequado para impulsionar o panorama econômico brasileiro. Surpresa? Nem tanto. Os recursos consignados no orçamento 2011 para o PAC, por exemplo, estão na escala de 103,7 bilhões de reais. Parece muito. Mas não é. Tudo é relativo. Parcela diminuta,considerando-se que o total da lei de meios é de 1 trilhão e 996 bilhões. Os investimentos ficam em torno da faixa de 5,5%. Perdem para a inflação que, nos últimos doze meses, alcançou 7,3%. E se considerarmos a taxa demográfica de 1,2%, revelada pelo IBGE, vamos ver que as aplicações de capital tornam-se insuficientes.

A cada ano no Brasil, a população cresce 2 milhões de pessoas. O Índice de nascimentos é de 1,9 e a mortalidade de 0,7%. A mortalidade infantil tem recuado mas as necessidades globais do país avançam. Dois milhões de seres humanos significam a necessidade de se construir 500 mil unidades habitacionais para evitar o agravamento do déficit de habitação, além do crescimento de favelas. Significam mais saneamento, mais escolas, mais hospitais, transporte e segurança. Tudo o que deixa de ser feito com a redução dos investimentos e com a queda do patamar de emprego e dos salários.

O desemprego recuou este ano 6%. Mas ainda é alto. Representa praticamente 7 milhões de desempregados, o que é grave, sem contar com os subempregados.É preciso romper o círculo vicioso e o impasse entre o capital é o trabalho, muito forte em nosso país. Os lucros dos bancos aumentam sem parar. Quem prestar atenção no extrato bancário que recebe a respeito de sua conta corrente depara com ofertas de cheque especial. Oito por cento ao mês, como o Bradesco assinala, equivalendo a 176% ao ano. Detalhe: 176% são 25 vezes a taxa inflacionária atual. Basta dividir 176 por 7. O resultado é simplesmente fantástico. Há juros menores, é claro. Mas nunca inferiores a 4% ao mês.

A Selic, 12% anuais, não é nada em comparação com os índices financeiros do mercado. Um pesadelo. É preciso que a população acorde para esta realidade. E se manifeste pacificamente contra ela. Senão, nada muda. O voto é o instrumento mais eficaz e democrático.

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