Investimentos pequenos desestimulam a produção e o emprego

Pedro do Coutto

Reportagem da Folha de São Paulo, edição de quarta-feira, revela, com base em dados oficiais do IBGE, que nos cinco primeiros meses deste ano a produção industrial caiu 3,5% em relação à registrada de janeiro a maio de 2011. A descida entre um período e outro vem sendo por degraus sucessivos. Em maio de 2012, ocorreu o nono recuo. Quem inclusive, vem se acelerando. Pois a relação maio a maio sinaliza uma diminuição de 4,3 pontos.

Grave. Porque o problema não é só a queda no produto industrial. É preciso se levar em conta uma taxa inflacionária de 5,1% para os últimos doze meses e um índice demográfico da ordem de 1,2%. Verifica-se assim que o declínio foi muito maior do que parece à primeira vista. O crescimento populacional de 1,2 significa que, ao longo do espaço de um ano, nasceram no país cerca de 2 milhões de pessoas. O que, de outro lado, representa uma pressão adicional sobre o mercado de trabalho.

Como a população brasileira é de 200 milhões de habitantes, e a mão de obra ativa, de 100 milhões, a metade, verifica-se em decorrência a necessidade de o mercado oferecer, pelo menos, um milhão de postos de trabalho de janeiro a dezembro. Um milhão de oportunidades além dos empregos já existentes, diga-se claramente. Se isso não acontecer, o país estará socialmente andando para trás. Se ocorrer haverá um empate. Ficamos no mesmo lugar. Se o sistema empresarial público e privado proporcionar mais de um milhão de acessos, aí sim, estaremos vencendo o jogo, resgatando o tempo perdido. Lembremo-nos de Marcel Proust, um dos maiores escritores do século vinte.

Todas essas faces têm que ser consideradas. Pois não basta anunciar volume expressivo de novos empregos, como costuma divulgar o Ministério do Trabalho. Tem que se levar em conta o número de demissões. O mercado brasileiro é de intensa rotatividade. Para se ter ideia exata, há necessidade de se ler os relatórios anuais do FGTS publicados no Diário Oficial nas páginas reservadas à Caixa Econômica Federal. Está para sair o de 2011.

Mas com base no de 2010, vê-se que houve quase 18 milhões de demissões naquele ano, acarretando saques de praticamente 24 bilhões de reais no Fundo de Garantia. A média salarial brasileira, portanto, oscila em torno de 1 mil e 300 reais por mês. Dezoito milhões de exonerações representam média mensal de 1 milhão e 500 mil. E 18 milhões de dispensas a cada doze meses significam também 18% da força de trabalho. Muita coisa.

Por isso é que falo na criação adicional de empregos. Porque milhões de casos são apenas demissões. Alguém perde o emprego aqui, consegue reempregar-se ali. Mas tal movimento não é adição: é substituição. O problema, entretanto, não termina aí. É essencial comparar-se o valor do salário interrompido com o valor do salário do emprego retomado. O IBGE e o FGTS necessitam ter mais clareza nas informações econômicas que veiculam. Mas esta é outra questão.

O fundamental para a retomada da produção da indústria, aponta a FSP, é o nível de investimentos. Muito pequeno. Os investimentos do governo federal, para 2012, conforme publicado no DO, são de apenas 107 bilhões de reais. Cinco por cento do orçamento da União para o exercício. Poucos investimentos governamentais levam a poucos investimentos particulares. Consequência da falta de confiança no panorama global. Confiança no desenvolvimento. Pois as medidas financeiras se repetem sem proporcionar reação positiva da economia. Não é por aí, portanto, o caminho.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *