Jango em Moscou

Sebastião Nery

Em agosto de 61, vice-presidente de Jânio Quadros, João Goulart passou por Moscou, a caminho da China, de onde voltaria para assumir a presidência da Republica, com a renúncia de Jânio. Vasta a comitiva: senadores Barros Carvalho (PE) e Dix Huit Rosado (RN), deputados Franco Montoro (SP) e Gabriel Hermes (PA), o advogado Evandro Lins, os jornalistas João Etcheverry, diretor da Última Hora, e Raul Ryff, assessor de imprensa.

Jango foi visitar Nikita Khruschev, secretário-geral do Partido Comunista e dono do poder. Khruschev contou que o presidente Kennedy, dos Estados Unidos, no encontro de Viena, lhe propusera a divisão do mundo em dois: às então nações socialistas seria assegurada a continuação, e em troca as nações capitalistas receberiam a garantia de permanecerem capitalistas. E Washington e Moscou seriam os guardiães desse zoneamento, dessa estratificação econômica e social, desse novo Tratado de Tordesilhas.

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KHRUSCHEV

Raul Ryff, com seu fino humor, lembrava-se bem de Khruschev passando sempre a pequena mão gorda na cabeça, onde despontavam ralos cabelos cortados à escovinha e rindo muito, sobretudo de suas próprias tiradas:

– Veja, senhor vice-presidente, não pude concordar. Nós, por exemplo, teríamos de ajudar a sustentar nosso vizinho, o Xá do Irã, que está cai e não cai, e recolocá-lo em seu trono toda vez que ele escorregasse, sacudido pela oposição que lhe faz seu povo. Isso não teria sentido. Não concordei.

E Khruschev disse mais, sempre rindo: – Veja bem, senhor vice-presidente. Quando os norte-americanos ajudam um país ainda pouco desenvolvido, como o Brasil, e me refiro a uma verdadeira ajuda, coisa rara vinda de Washington, esse gesto de apoio deve ser creditado sobretudo a nós, soviéticos. Washington só toma tal iniciativa para evitar nossa colaboração com os países pouco desenvolvidos, temendo possíveis influências nossas sobre eles.

E ria, ria muito, seu risinho gordo de simpático porquinho da Índia.

Khruschev caiu antes do Xá.

Bons tempos aqueles em que ainda se discutia a divisão do mundo entre dois rufiões, donos do cabaré universal. Hoje, muitos políticos, economistas e grande parte da imprensa ocidental acha que o cabaré é de um rufião só, os Estados Unidos, e todo mundo tem que fazer o que seu rufião mandar.

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