Jango em Paris

Sebastião Nery

PARIS – Em 1976, acabada a Constituinte portuguesa (onde escrevi “Portugal, Um Salto no Escuro”, para a Ed. Francisco Alves), que deu a vitória ao Partido Socialista de Mário Soares, ia começar a da Espanha, convocada para 1977 (viajei a serviço da “IstoÉ” e do “Correio Braziliense”)

Vim passar duas semanas em Paris e soube que o ex-presidente João Goulart estava na cidade, cuidando do sofrido e alquebrado coração. Estava hospedado no Hotel Claridge, Avenida Champs Elisées, 74, atrês quadras do Arco do Triunfo. Fui lá deixar-lhe um cartão com um abraço brasileiro.

Na portaria, saindo do hotel, encontrei o Carlos Castello Branco que fora visitá-lo e conversar com ele. Saía preocupado:

– O Jango não está bem, muito pálido e inconformado com o exílio.

Deixei um bilhete, com o telefone do hotel onde estava hospedado, o Argentine, ao lado do Arco do Triunfo. No dia seguinte, um recado do presidente. Esperava-me para uma conversa. Fui. Conversamos horas. O Castelinho tinha razão. A ditadura militar estava assassinando Jango. Talvez eu tenha sido inábil ao contar-lhe a história rocambolesca do hotel.

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CLARIDGE

O Claridge, onde tantas vezes me hospedei quando era no máximo de U$ 200 a diária, faz parte da história cultural, política e militar de Paris. Fundado em 1911, nele viveram artistas, escritores e generais alemães. Colette, a dama das letras, morou lá, como o cantor Maurice Chevalier.

Quando Hitler invadiu Paris em 1940, o marechal Von Rundstedt, (com seu ajudante de ordem, o coronel Paulus), comandante da totalidade das tropas alemãs na França, ocupou a suíte central , a mais bonita. Mas seu quartel general ficou na Avenue Kleber. Havia festas feéricas para ele.

Quando a guerra acabou, o diretor M. Machenaud, serviçal e puxa-saco, foi preso e executado pelas tropas de De Gaulle. Em agosto de 45 os nazistas derrotados foram substituídos por gente melhor, como Marlene Dietrich e Jean Gabin. E a divina Edith Piaf, o automobilista argentino Manoel Fangio, Evita e Juan Perón, Ella Fitzgerald, os romancistas George Simenon, e Scott Fitzgerald, o poeta Ezra Pound, o cantor Ray Charles, a atriz Janie Mansfield, o ator Curd Jurgens, o cineasta Luis Buñuel, de novo Perón em 1973  já agora com sua Izabelita, e Pavarotti, tantos outros.

Jango espichava a dura perna direita, olhava os móveis e cortinas do bar, bebia mais um uísque, ficava calado e infinitamente triste. Ia morrer.

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JORGE FERREIRA

 Vim pensando em tudo isso no avião, lendo a excelente biografia de João Goulard, bem escrita, bem documentada e sobretudo muito verdadeira, do professor e historiador Jorge Ferreira, da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do CNPQ e da FAPERJ, editada pela Objetiva –  Civilização Brasileira (700 páginas).

Não foi novidade para quem já conhecia suas exemplares e convincentes pesquisas sobre o trabalhismo brasileiro: “O Imaginário Trabalhista – Getulismo, PTB e Cultura Política Popular”, “Prisioneiros do Mito – Cultura e Imaginário Político dos Comunistas no Brasil”, “O Populismo e sua Historia, Debate e Crítica”.

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JANGO

1 – “Em setembro (de 76), João GoularT viajou para a Europa. Vários foram os motivos. O primeiro foi fugir das ameaças que passara a sofrer na Argentina. Precisava tomar providências para encontrar uma residência em Paris. Na capital francesa residiria até o retorno ao Brasil. As intimidações que pesavam sobre sua vida e de seus familiares no Cone Sul o obrigavam a isso. Em Paris, encontrou-se com Abelardo Jurema e também com José Gomes Talarico, a quem pediu que procurasse Mário Soares a fim de agradecer-lhe o convite para ir a Portugal”.

2. – “Não deveria aceitar, alegou, pelo constrangimento que causaria ao líder português, no início de seu mandato, diante do governo brasileiro. Mas pedia que ele regularizasse a situação dos exilados brasileiros em Portugal. Soube também que Mário Soares manifestara preocupação com Brizola vivendo sob a ditadura uruguaia. E sugeriu que ele fosse para Portugal. onde imediatamente teria trabalho”.        

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CORAÇÃO

3. – “Mas a razão mais séria da viagem foi a pressão da família e do médico uruguaio para se consultar com dois especialistas europeus, um em Paris, outro na Suíça. O médico suíço, após uma série de exames, concluiu que o coração de Jango era frágil como o de um homem de 80 anos, quando, na época, tinha apenas 56. O médico francês disse que sem perder peso e parar de fumar a medicina nada poderia fazer por ele, completando:

– “Monsieur le President, si on ne veut pas vivre, on ne vit pas.”

Embora ouvisse as reclamações médicas, não as seguia. Negava-se a parar de fumar. De Lyon, escreveu uma carta para Cláudio Braga:

– ”Estou concluindo exames médicos, com resultados bem razoáveis, especialmente considerando que não me sujeitei nunca a prescrições”.

Em 6 de dezembro de 1976, Jango morria numa fazenda na Argentina

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