Jânio condecorou Guevara; Lacerda deu chave do Rio a Verona

Pedro do Coutto

Numa brilhante reportagem de duas páginas, edição de domingo 14 de O Estado de São Paulo, Wilson Tosta focalizou por vários ângulos os últimos dias de Jânio Quadros na presidência, que culminaram com a alucinada renúncia a 25 de agosto. O choque ressoa até hoje, 50 anos depois na consciência brasileira e na percepção intuitiva popular de que abriu uma fenda institucional, um abismo político no qual de precipitaram os esforços do lacerdismo para impedir a posse do vice João Goulart, véspera do golpe militar de 31 de março de 64 que derrubou o empossado e afastou o povo de eleger, durante 29 anos, um presidente da República pelo voto direto.

Wilson Tosta em seu mergulho no passado teve acesso a documentos existentes na Fundação José Aparecido de Oliveira, em Belo Horizonte, secretário particular de JQ no impacto da renúncia. O jornalista focaliza a viagem de Jânio a Cuba, seus encontros com Fidel Castro e Ernesto Che Guevara, fala da troca de notas diplomáticas entre os chanceleres Afonso Arinos de Melo Franco e o ministro do Exterior de Cuba, Raul Roa, da entrevista de Lacerda à TV Tupi denunciando ter sido convidado pelo presidente para um golpe incluindo o fechamento do Congresso. Perfeito.

Poderia ter incluído em seu trabalho o livro de Murilo Mello Filho sobre a renúncia. O melhor sobre o tema. Muito superior ao deixado pelo jornalista Carlos Castelo Branco. Castelinho, talvez por ter sido assessor de Imprensa de Jânio, tenha se inibido diante da lógica dos fatos. Era um gênio de estilo. Mas não foi – acontece – o melhor intérprete da história incluindo o golpe frustrado que Quadros queria desfechar contra o país.

Entretanto, existe uma sequência da qual fui testemunha, como repórter do Correio da Manhã, que desejo reproduzir como subsídio a um possível livro de Wilson Tosta ou a algum acréscimo na obra-prima de Murilo Mello Filho, na época editor político da revista Manchete, que não circula mais. Jânio condecorou Guevara numa sexta-feira, dia 19 de agosto, em Brasília. A repercussão foi negativa. Primeiro em face dos fuzilamentos em série praticados em Havana contra adversários do regime que se implantava. Segundo porque o comando militar reagiu mal ao ato, sob impulso principal de que, sendo argentino de nascimento, Guevara era mais um soldado profissional do que um revolucionário cubano. Guevara, mais tarde naturalizou-se, mas em agosto de 61 era um vulto considerado sem pátria pelos generais. Terceiro porque enquanto internamente o Brasil fazia a política monetarista do FMI, aceitando forte influência de Roberto Campos, então embaixador do Brasil em Washington, externamente agia em sentido contrário à liderança ocidental.

Estávamos vivendo um período de bipolaridade. Uma no cravo, outra na ferradura. Na economia, fidelidade à política da Casa Branca. Na política externa, preocupação intensa em se aproximar de Moscou via Havana. O que aconteceu? A resposta mais lúcida – vejo agora – foi dada pelo jornalista e historiador Plínio de Abreu Ramos: perdeu a confiança dos dois lados.

Agora, as horas finais da renúncia. Jânio condecora Guevara na sexta-feira. Carlos Lacerda – assisti – no sábado dá a chave da cidade do Rio, então Guanabara, ao líder anticastrista Manoel Verona. Orador brilhante, Verona fez no Palácio Guanabara inflamado discurso contra Jânio e Fidel. Presente ao evento o general Cordeiro de Farias, chefe do EMFA. Explodia a crise. Jânio chama Lacerda ao Palácio Laranjeiras. Termina o encontro, Lacerda recusa-se a falar com a imprensa. Jânio tenta intervir no estado. Não consegue. Lacerda denuncia o golpe na terça. Jânio renuncia na quinta-feira. Era o dia 25 de agosto.

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