Jânio de Freitas surpreende ao duvidar da ação de José Dirceu

Pedro do Coutto

Foi sem dúvida surpreendente o artigo de Jânio de Freitas, Folha de São Paulo de domingo, 22, sobre o julgamento do Mensalão no STF, ao levantar dúvida sobre a atuação do ex-ministro José Dirceu no escândalo que explodiu em 2005 e culminou com sua demissão da Casa Civil por decreto do presidente Lula. Dirceu teve também seu mandato parlamentar cassado pela Câmara dos Deputados. Surpreendem o teor e o tema, principalmente em face de os argumentos usados não se encontrarem à altura da importância do articulista no jornalismo brasileiro.

Num dos trechos, o jornalista sustenta faltar comprovação de que o ex-ministro comandava as operações financeiras efetuadas por Delúbio Soares e outros. Afirma não haver evidência de que chefiasse a quadrilha. Jânio de Freitas voltou-se contra o ex-Procurador Geral da República, Antonio Fernando de Souza, que encaminhou a denúncia contra Dirceu e 37 outros acusados ao Supremo Tribunal. Agiu – disse – com virulência emocional. E indaga: po que não teria sido Antonio Palocci o braço do governo?

Não faz sentido a colocação. Simplesmente porque Palocci sequer é citado no Mensalão. Além do mais, a denúncia do ex-Procurador, mantida pelo atual, Roberto Gurgel, foi aceita pelo ministro Joaquim Barbosa, relator do processo. Não é possível que Jânio tenha maior conhecimento da matéria do que o próprio Joaquim Barbosa. Isso de um lado. De outro, o julgamento vai se iniciar na próxima semana e os debates vão elucidas as dúvidas e iluminar as sombras focalizadas pelo jornalista.

A surpresa em torno do artigo inclusive cresce diante da presença de Jânio de Freitas no combate a casos de corrupção, como aqueles que há alguns anos denunciou , na mesma Folha de São Paulo, apontando fraudes enormes em concorrências públicas decididas antes mesmo da abertura das propostas e de seu julgamento. Conquistou dois Prêmios Esso de Reportagem pelas matérias. Um profissional íntegro, penso eu a seu respeito.

Seus trabalhos sempre foram marcados por uma independência e lucidez. No texto de domingo, não contesto sua independência e probidade, mas lamento sua falta de lucidez. Se não foi José Dirceu quem comandou os repasses de recursos, quem foi? Delúbio Soares e Marcos Valério são personagens secundários, integrantes do elenco de apoio. Podem ter executado ordens e até extrapolado como acontece muito na política. Mas não tinha voz de comando, poder original de decisão, não possuia a chave do cofre. Mesma coisa que PC Farias no governo Fernando Collor. Só podia operar por ordem do presidente. Caso contrário seria expulso das salas dos empresários com os quais dialogou.

Ao defender indiretamente José Dirceu, Jânio de Freitas está sendo ingênuo. Termina prejudicando a própria imagem no espelho da opinião pública. O posicionamento que adotou não foi bom para o jornalista. Os fatos que vão emergir do julgamento da Corte Suprema no final da ópera vão deixar Jânio de Freitas mal pela atitude que assumiu. Inclusive o que são provas concretas? Recibos de ilegalidade? Se assim fosse, criminoso financeiro algum poderia ser condenado.

Veja-se, por exemplo, o processo contra o deputado Paulo Maluf na Ilha Jersey. A condenação do mesmo personagem pela Justiça de Nova Iorque. A ponte entre a realidade e as circunstâncias é mais concreta do que se imagina. Há os depoimentos, entre eles o de Roberto Jeferson que, para acusar Dirceu, de forma shaksperiana, acusou a si mesmo. Tornou-se o único réu na história a acusar a si mesmo. Há o caso do publicitário Duda Mendonça que confessou remessa ilegal de divisas e sonegação fiscal. Como o dinheiro foi parar em sua conta num paraíso fiscal? Alguém autorizou. Quem?

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