Jobim irritou Dilma e Lula, decepcionou a si mesmo, assustou a oposição

Pedro do Coutto

Foi um desastre político completo, comportamento inacreditável de um homem que foi ministro e até presidente do Supremo Tribunal Federal. Com as declarações que fez à Revista Piauí, o ex ministro da Defesa, ao mesmo tempo e em poucas palavras, irritou a presidente Dilma, o ex-presidente Lula, irritou as ministras Ideli Salvati e Gleisi Hoffmann, decepcionou a si mesmo e, ainda por cima assustou a oposição. Esta admitiu existir no ataque do ex-titular da Defesa algo semelhante às pregações de Carlos Lacerda, no passado, sempre que perdia uma eleição. Aí está o motivo, a meu ver, do silêncio dos líderes do PSDB, DEM e PPS. Ditadura nunca mais, foi o pensamento silencioso, mas reflexivo de toda a classe política.

Nelson Jobim vinha insistindo em desencadear uma crise, com seus sucessivos pronunciamentos contra o próprio governo a que pertencia. Parecia um líder oposicionista em busca de uma radicalização que só existia em sua mente. Assim como Lacerda agiu no passado. Em 1950, Getúlio Vargas não podia tomar posse.  Em 55, JK não podia assumir o governo. Em 1960, ele venceu nas urnas com Jânio Quadros. Aí não disse nada. Até a crise de agosto com a condecoração de Che Guevara. Jânio renunciou, Carlos Lacerda voltou-se contra a posse de João Goulart.

Em 1965, Lacerda, então governador da Guanabara, apoiou Flexa Ribeiro para seu sucessor. Perdeu por maioria absoluta. Negrão de Lima, vitorioso, não podia tomar posse. Quer dizer: em quatro eleições, das quais em três esteve no lado derrotado, o vencedor não podia tomar assumir. Carlos Lacerda era um gênio, ídolo de classe média. Foi um administrador extraordinário no Rio. Mas democrata, como os fatos provam, nunca foi.

A oposição a Dilma e Lula, aliás o pouco que resta dela, temendo uma proposta de novo apelo aos quartéis, características lacerdistas, puxou o freio de mão e, como é lógico, evitou tornar-se agente de um projeto de ruptura institucional. Pois quem monta num tigre, afirmou certa vez o deputado Hermano Alves, não sabe quando pode descer.

Em 1964, por exemplo, Lacerda, muito mais que Magalhães Pinto, foi o principal líder da revolução que derrubou o presidente João Goulart. Mas acabou cassado, em dezembro de 68, pelo movimento que liderou. A experiência da história é a melhor conselheira.
A insurreição de 31 de março partiu da classe média. Tal mobilização esgotou-se no outono de maio. A perspectiva de poder escapava de Carlos Lacerda e portanto da classe média. Deslocava-se para o poder militar em aliança com os sistemas econômicos liderados primeiro por Roberto Campos, depois por Delfim Neto, e com o universo de tecnocracia.

Em vez de distribuição de renda, ao contrário, concentração. A massa salarial pesava 60% do PIB. A remuneração do capital 40. Encerrado em 85, com a posse de José Sarney, o ciclo dos generais no poder, a massa dos salários recuou para 40. A remuneração do capital avançou para 60%. Inverteu-se a pirâmide. Com isso, o processo de 64 inviabilizou-se eleitoralmente. Consequência: fim do voto direto.

O povo passou 25 anos sem eleger o presidente da República pelo voto direto. E dezoito anos sem eleger democraticamente os governadores dos Estados. Vale lembrar que João Figueiredo foi quem convocou as eleições estaduais em 82. Registro indispensável para a história. Com todo esse elenco de exemplos, a oposição tem razões de sobra para o silêncio. Mas eu disse no início que Nelson Jobim decepcionou a si mesmo. Fato. Tanto assim que tentou desmentir a própria entrevista. Se não tivesse se decepcionado consigo próprio, não recuaria. Pelo contrário. Iria em frente. Não foi isso o que fez.

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