Jobim revela intenção de deixar a Defesa, partindo para o ataque

Pedro do Coutto

Em entrevista ao repórter Fernando Rodrigues para o canal FSP-UOL, que foi ao ar na noite de terça feira e publicada na edição de quarta da Folha de São Paulo, o ministro Nelson Jobim, claramente sinalizando sua intenção de deixar o ministério, tomou a iniciativa de revelar ter votado em José Serra, e não em Dilma, nas eleições de 2010. Como tal pergunta não lhe foi formulada pelo entrevistador, o impulso interior da informação portanto partiu dele próprio. Deixou a defesa e foi para o ataque.

“O rumo do governo” – acrescentou – “seria o mesmo caso Serra houvesse vencido”. Ora o titular da Defesa, no caso, não defendeu, e nem defenfe, nenhuma convicção. Mantém-se alheio. Mas como é ministro da presidente Dilma, não pode se colocar politicamente neutro. Deve lealdade a quem o nomeou. Está esquecendo que haverá eleições municipais em 2012, prévia das sucessões estaduais e da sucessão presidencial de 2014. Afinal de que lado se coloca? Fazendo a afirmação que fez, deu argumento à oposição. Por isso, aliás é o que está querendo, deve tomar a iniciativa de se demitir. Antes de ser demitido. Não ficará bem para ele e para a presidente da República se permanecer na pasta.

Aliás, Fernando Rodrigues lembra afirmação sua recente feita ao saudar os 80 anos de FHC, que, agora, os idiotas perderam a modéstia. O que, deixou implícito, o obrigava a lidar com eles. Na ocasião, publiquei artigo dizendo que ele estava preparando a aterrissagem. Estava sinalizando sua saída do Planalto e seu retorno à planície. A contradição comparativa que colocou não foi suficiente para viabilizar sua renúncia. Mas como é nitidamente seu desejo, tornou sua posição agora ainda mais explícita. Tenho a impressão que o decreto presidencial é questão de horas.

Se Dilma não afastá-lo, terá contribuído para abalar fortemente o seu esquema de poder. Isso porque – lembro de antigamente – um presidente da República não pode ser tratado com desdém público. O comportamento de Nelson Jobim é praticamente inédito na história política brasileira. Duplamente inédito. Ontem eram os idiotas, que, depois, ao se retratar perante Dilma, disse ter se referido a jornalistas. Hoje, quem são? A quem se dirigiu? À própria Dilma Roussef.

Além disso, na entrevista à Folha de São Paulo-UOL, assumiu uma posição absolutamente contrária à da presidente. Ela anunciou que vai decidir sobre a abertura dos papeis relativos à ditadura militar de 64 a 85. Nelson Jobim afirmou a Fernando Rodrigues que destruiu os que se encontravam com o Ministério da Defesa. Quanto aos demais, afirmou-se favorável à liberação daqui a 50 anos. Ele teria que esperar a definição da presidente. Não aguardou. Precipitou-se. E numa hora imprópria em que torturados e torturadores se encontram em frente à Justiça.

Politicamente foi um desastre a entrevista. Só não foi maior porque ele não pode sustentar ter sido traído pelo jornalista. Ele não traiu, nem foi traído. Disse o que pensava e fez questão de fazê-lo. Tenho a impressão lógica que todos nós devemos esperar apenas a publicação do decreto no Diário Oficial.

Sob o prisma eleitoral, aí sim, a contradição é das mais amplas. Afinal de contas o PT prepara-se para enfrentar disputas difíceis no ano que vem no Rio de Janeiro, na cidade de São Paulo, em Belo Horizonte, principalmente. Bases que produzem reflexos no panorama nacional. Na capital paulista, por exemplo, Lula empenha-se pela candidatura do ainda ministro Fernando Haddad. O candidato do PMDB é Gabriel Chalita. Alckmim tenta lançar José Serra. Jobim refortaleceu Serra. Isso de um lado. De outro, Lula está livrando Dilma de Haddad, que ela não queria nomear e se empenha para substituir.

Política é assim. O inesperado aparece sempre.

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