Joe Louis e Cassius Clay se encontram na eternidade

Muhammad Ali e Joe Louis, dois dos maiores pugilistas de todos os tempos

Pedro do Coutto

A morte de Cassius Clay, que alterou seu nome para  Muhammad Ali, promoveu o encontro na história do box que o conduz à eternidade, juntando-se com Joe Louis, outro grande pugilista americano que, com ele combateu o autoritarismo e o racismo, num dos momentos mais graves da história da humanidade. Cassius Clay se recusou a lutar na Guerra do Vietnã, condenando assim a intervenção militar norte-americana no sudeste da Ásia. Joe Louis nocauteou o alemão Max Schemeling em 1929, na véspera da Segunda Guerra Mundial. Estava em jogo o cinturão de ouro e Hitler transformou o combate num confronto racial, tentando exaltar sua tese da superioridade branca.

A luta foi no Madison Square Garden e Joe Louis venceu logo no primeiro assalto, derrubando a tese hitlerista contida na base do Nazismo. Louis manteve o título até 1948. Foi o período mais longo em que um campeão peso pesado tenha se mantido à frente do box e saiu sem ser derrotado. Voltou dois anos depois, mas esta é outra questão.

Antes de Louis, o corredor Jesse Owens na Olimpíada de 36 em Berlim havia derrubado a ideia da valorização atlética da raça branca sobre a negra, vencendo a prova dos 100 metros e levando Hitler a se retirar do Estádio Olímpico para não colocar a medalha de ouro no seu peito. Hoje a avenida em que se localiza o Estádio Olímpico de Berlim tem seu nome gravado para sempre.

SURGE CASSIUS CLAY

A luta contra o racismo e o autoritarismo atravessou o tempo até a época em que Cassius Clay despontou como campeão da Olimpíada de Roma em 1960. Ingressou no boxe profissional (naquele tempo as Olimpíadas eram restritas a atletas amadores) e se consagrou nos ringues a partir da vitória sensacional contra Sony Liston. Era o início de sua epopeia. Mas sua jornada heroica como as de Louis e Owens colidiu com a escalada norte-americana na guerra do Vietnã, a partir de 65, no governo do presidente Lindon Johnson. Convocado a integrar as forças militares negou-se a colocar sua figura, já famosa, à disposição de uma política de Washington, contra a qual se rebelava e condenava.

Por isso, foi cassado o título de campeão do mundo, mas sua atitude marcou um episódio bastante forte junto à opinião pública, não só americana mas mundial. A guerra do Vietnã prolongou-se e houve  o final do governo Richard Nixon, derrubado pelo escândalo de Water Gate. Durante a Guerra do Vietnã, que  terminaria em 75, morreram mais de 500 mil pessoas. Um absurdo, uma calamidade, pois a solução terminou sendo a mesma que poderia ter acontecido já em 65. A Guerra do Vietnã acabou em 75, mas as forças americanas começaram a se retirar em 73. Foi por causa da participação de Washington no conflito que Cassius Clay aderiu ao islamismo.

DE VOLTA AO BOXE

Retornando ao boxe, Ali retomou o título por dois caminhos: uma decisão da Suprema Corte devolveu-lhe o cinturão, que perdeu para Joe Fraizer no primeiro embate. No segundo venceu a revanche: o cinturão voltou às suas mãos. Ali o manteve mais uma vez, derrotando George Foreman num combate histórico realizado no Zaire.

Mohammad Ali tornou-se uma figura mundial. Participou ativamente da campanha de Martin Luther King por igualdade dos direitos civis. Colocou sua imagem ao lado das posições corretas, como afirmou o presidente Barak Obama na mensagem pública sobre sua morte. Com isso acrescenta-se à história de Alí a confirmação por parte de um presidente dos EUA do erro catastrófico que foi a invasão do Vietnã. Nem Ali nem Obama mudaram a história do mundo, mas deixaram marcado sua posições de crítica e de inconformismo com acontecimentos do passado recente.

Este é o legado maior que deixam para o futuro com suas mensagens de liberdade, democracia e respeito aos direitos humanos. Obama e Ali vão ficar na história ao lado de Owens e Joe Louis, um político portanto entre atletas negros que destruíram o mito da supremacia racial. Somos todos iguais, todos filhos de Deus.

7 thoughts on “Joe Louis e Cassius Clay se encontram na eternidade

  1. Excelente artigo. Dos pugilistas que eu vi lutar o Muhammad Ali foi um pugilista incomparável, era um verdadeiro bailarino dentro do ringue, usava todo os recursos do boxe com perfeição, numa variedade de jabe, direto, cruzado, gancho, hook, uppercut e jab-direto, numa velocidade incrível para um peso pesado. Assim, como Pelé, que dominava todos os recursos possíveis do futebol com perfeição, usava tanto a perna direita como a esquerda, que poucos jogadores tem essa habilidade, cabeceava bem, fazia a leitura do jogo com inteligência e uma grande visão de gol. Pelé foi um craque completo e Cassius Clay foi o Pelé do pugilismo.

  2. Está circulando na web um pequeno vídeo de 4 minutos com Muhammad Ali explicando a sua conversão ao Islã. Profético ele diz que a partir dos EEUU a Fé muçulmana iria se espalhar por outros países, através da conscientização dos negros.

    Coincidência ou não, soube hoje que, nas periferias brasileiras, pequenos grupos islamizados começam a surgir.

    Finalmente estão percebendo que nenhum partido burguês, com ideologias acadêmicas e européias estão interessados em ajudar os pobres e periféricos.

    Vem mudança por aí, demora mas vem… diferente de tudo o que estamos acostumados a ver.

  3. Homenagem a um humanista falecido….

    “Cassius Clay é o nome de um escravo. Não foi escolhido por mim. Eu não o queria. Eu sou Muhammad Ali, um homem livre”.
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    “Somente um homem que sabe o que sente ao ser derrotado pode ir até o fundo de sua alma e tirar dali aquilo que lhe resta de energia para vencer um combate equilibrado”.
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    “Sei aonde vou e sei o que é a verdade. E não tem por que ser o que você quer que seja. Sou livre para ser aquilo que quero ser”.
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    “Impossível é apenas uma palavra usada pelos fracos que acham mais fácil viver no mundo que lhes foi determinado do que explorar o poder que possuem para muda-lo. O impossível não é um fato consumado. É uma opinião. Impossível não é uma afirmação. É um desafio. O impossível é algo potencial. O impossível é algo temporário. Nada é impossível”.
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    “Não vou percorrer 10.000 quilômetros para ajudar a assassinar um país pobre simplesmente para dar continuidade à dominação dos brancos sobre os escravos negros”.
    ( Sobre a Guerra do Vietnam )
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    “Quando criança, eu pedia ao meu irmão Rudy que jogasse pedras sobre mim. Era assim que eu aprendia a fazer meus movimentos, esquivando-me de pedradas”.
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    “Um homem que enxerga o mundo aos 50 anos da mesma forma que aos 20 perdeu 30 anos de vida”.
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    “Não divido o mundo entre os homens modestos e os arrogantes. Divido o mundo entre os homens que mentem e os que dizem a verdade”.
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    “Não suporto ver sangue. Em muitas das minhas lutas, eu tinha de olhar para o lado”.
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    “O silêncio vale ouro quando não se consegue achar uma boa resposta”.
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    “Não conte os dias: faça com que os dias contem”.
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    “Quando você tem razão, ninguém se lembra disso; quando está errado, ninguém esquece”.
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    “Outro dia fui ao cinema ver um filme de terror. Ele se chama Baron Blood. Comparado com isso, ter ganho de Foreman foi apenas mais um dia na academia”.
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    “O boxe é um monte de brancos vendo como um negro vence outro negro”.
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    “Servir aos outros é como o aluguel que se tem de pagar por uma casa na Terra”.
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    ( Muhammad Ali )

  4. Joe Louis nunca enfrentou Schmelling no Madison Square Garden. As duas lutas entre os dois foram no Yankee Stadium. A primeira em 1936, a segunda em 1938. Aliás, em 1929 Louis nem sequer lutava profissionalmente….

    • Isso mesmo. Joe perdeu para Schmelling na de 1936 (ele nunca tinha perdido antes), e conseguiu a revanche em 1938, nocauteando Schmelling em apenas dois minutos e quatro segundos. Ficou conhecida como “A Luta do Século”.

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