Jorge, o Amado

Sebastião Nery

Jorge Amado chegou a Roma, em 1990, com Zélia Gattai e a filha Paloma, para receber na Sicilia o “Premio Mediterraneo”. Fez um debate no “Centro de Estudos Brasileiros” da embaixada, onde eu era o Adido Cultural, na monumental Piazza Navona. Fomos para Palermo eu e a bela Maria Lucia Verdi. 

A Sicilia foi uma festa baiana. Na entrega do premio, no Centro de Cultura Mediterranea, o cardeal Salvatore Papalardo, o presidente do Parlamento regional, que significa o governador da provincia, escritores, professores. E sobretudo leitores.

Na Faculdade de Línguas e Literatura de Palermo, debateu horas com estudantes. Queriam saber sobretudo como o Brasil conseguiu misturar suas raças, quando a Europa mergulhava em um perigoso conflito com os imigrantes. Jorge Amado explicou:

– “A Constituição soviética é modelar contra qualquer discriminação social. No entanto, 70 anos depois, as varias nacionalidades ainda se devoram. Por que? Porque racismo só acaba na cama, com mistura racial e amor. Quando o primeiro portugues amou a primeira índia e a primeira negra, começava no Brasil o mistério da língua e da Nação”.

***
CASAMENTEIRO

À noite, na casa afetuosa de Geangaspare Ferro, editor italiano, e Hilda Ferro, carioca, comendo uma feijoada feita por uma baiana casada com um siciliano, estavam varios casais que se conheceram porque leram Jorge Amado, descobriram o Brasil nos livros dele, vieram conhecer, aqui encontraram brasileiros ou brasileiras, casaram-se e agradeciam a Jorge, o casamenteiro. E puseram nos filhos os nomes dos personagens de Jorge.

Depois, fomos perambular por toda a Sicilia. O grego Homero a chamou “Ilha do Sol”. Mas quem melhor a definiu foi Goethe, o alemão:

-“Sem ver a Sicília, não se pode fazer uma idéia da Itália. É na Sicília que se encontra a chave de tudo.”

***
MAFIA

O deputado siciliano Tuci Lombardo, ministro regional da Cultura, recebeu Jorge Amado e Zélia Gattai, dizendo-nos:

– “A Sicília é também a Máfia, mas não é só. (“Anche la Máfia, ma non solo”). Não há em nenhum outro lugar do mundo com tanta coisa antiga, histórica, em tão pouco espaço. Estamos vivendo uma crise econômica, com muito desemprego. O grande patrimônio, a grande economia da Sicília são seus bens culturais: temos aqui o mundo fenício, o grego, o romano, o bizantino, o árabe, o normando, o espanhol, o francês, o  barroco, o germânico. Todo o Ocidente está aqui.”

***
SICILIA

Nós brasileiros sempre tivemos uma idéia muito distante, nebulosa, falsa, da Sicília: uma ilha na ponta da bota da Itália, a terra da Máfia, uma província italiana. Pois a Sicília não é filha da Itália. É mãe. Não veio do Império Romano, é anterior. A civilização grega, antes de chegar a Roma, já estava na Sicília. Roma é a mãe da Europa, a Sicilia é a avó.

Quando os gregos chegaram lá, entre o 7º e 8º séculos antes de Cristo, e fundaram as magníficas Taormina, Siracusa, Catânia, Agrigento, Selinunte, a leste e ao sul da ilha, já no outro lado, ao norte e a oeste, estavam os fenícios desde o século 10º antes de Cristo, vindos da Síria: eram semitas inventores do alfabeto que os gregos aperfeiçoaram, navegadores, comerciantes, criadores do dinheiro e dos bancos.

Os fenícios, já instalados no norte da África, sobretudo em Cartago, chegaram à Sicília e criaram sua primeira cidade, Panormo (hoje Palermo, a capital), onde começou a civilização do mediterrâneo, a matriz (fenícia e grega) da Europa. Fenícios e gregos brigaram muito. Amílcar, Aníbal, generais de Catargo,enfrentaram os gregos Timoleão e Agatocle, a física e a matemática de Arquimedes. Só no século 3º AC, em 264, Roma chegou à Sicília com Pirro, para ajudar os gregos contra os fenícios, na primeira Guerra Púnica. Roma derrotou Catargo, expulsou os gregos e ficou na ilha.

***
CENTENARIO

Na Palermo capital da Sicília, mais velha do que Roma, foi criada a primeira universidade, e em Salermo, no ano 1130, se instalou o primeiro Parlamento do mundo. Ali Jorge Amado recebeu o “Prêmio Mediterrâneo Internacional”, um dos mais importantes da Europa. Foi uma festa bem à italiana: descontraída, simpática, comandada pelo editor Penzo Mazzone e pelo presidente do Centro de Cultura, Mario Sansone. Saudado por Alberto Bevilacqua como um dos mais importantes escritores do mundo, Jorge Amado agradeceu dizendo que não nasceu para ser importante e que sua literatura queria ser apenas a voz e ele o desenhista da alma do povo.

Neste agosto fez dez anos que ele morreu e começa o centenário do saudoso e inesquecivel brasileiro. Nasceu em 10 de agosto de 1912, em Pirangi, Itabuna, na Bahia do cacau. Não conheci outro brasileiro que gostasse tanto, amasse mais o Brasil do que ele. Nem ninguém, no século passado, se fez mais sinônimo de Brasil, em todos os continentes.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *