Jornalistas não vazam informações: divulgam vazamentos

Pedro do Coutto

Em entrevista à imprensa, quinta-feira, nos jardins da Casa Branca, reportagem de Raul Juste Lores, correspondente da Folha de São Paulo em Washington, o presidente Barack Obama afirmou que não iria se desculpar à opinião pública pelas medidas adotadas pelo Departamento de Justiça, controlando vinte linhas telefônicas da Associated Press, o que colide com a plena liberdade de imprensa que, no mesmo momento, defendeu como princípio de seu governo. O monitoramento, disse o presidente americano, é contra o vazamento de informações em matéria de segurança nacional que pode colocar em risco homens e mulheres de uniforme, militares portanto.

Obama confundiu os temas, talvez tenha agido assim para corrigir uma posição de governo, sem acentuar que buscava uma correção. Em primeiro lugar, vazamento na área de segurança nacional não afeta unicamente militares e sai a todos. Especialmente os diplomatas, como têm acontecido. A reportagem, publicada na edição de 17, sexta-feira, lembra o atentado que matou o embaixador na Líbia, Christofer Stevens, no ano passado. Isso de um lado. De outro, o ponto essencial da questão: os jornalistas da tradicional AP, e os jornalistas de modo geral, não são responsáveis pelo vazamento de informações, mas sim divulgam os vazamentos.

Assim, as escutas telefônicas realizadas pelo Departamento de Justiça implicitamente se estenderam a funcionários qualificados do governo, pois são eles que detêm as informações sigilosas. Os repórteres não são detentores dos segredos. Num terceiro estágio, quais as publicações que foram evitadas em consequência as escutas? O presidente não se referiu a tais casos, concretamente. Não apontou fatos.

RECEITA FEDERAL

O problema surgiu também com a atuação da Receita Federal, cujo chefe foi afastado, por ter apertado a fiscalização contra adversários políticos como forma de pressão. Mas o Secretário de Justiça, Eric Holder, permaneceu no posto. Holder merece minha confiança – acentuou Obama . O desafio, prosseguiu, é achar um equilíbrio entre a liberdade de imprensa e a segurança nacional. Porém uma imprensa livre e o fluxo aberto de informação mantêm a mim e ao governo responsáveis pela prestação de contas e ajudam nossa democracia a funcionar. São bem aparentes as contradições contidas na entrevista de Barack Obama.

Aproveitou a ocasião para pedir ao Congresso, desviando os assuntos centrais em foco, que trabalhe conosco e apoie nosso pedido de orçamento para destinar mais verbas para a segurança a nossos postos diplomáticos no exterior. Porque juntamente com a questão das escutas, veio à tona a denúncia feita no Senado de que a Receita Federal, o Fisco, agia de forma discriminada pressionando adversários de vinculação com o Partido Republicano, portanto quadros que seriam da oposição. Para a Casa Branca – assinala a reportagem – a oposição republicana tenta no fundo atingir Hillary Clinton, apontada como candidata favorita entre os democratas para a sucessão de 2016.

Mas na opinião do analista Peter Baker, artigo publicado no New York Times, o que está acontecendo é que, após sua reeleição e seis meses de um segundo mandato, Obama encontra-se pressionado entre o que esperava cumprir e o que de fato cumpre de seus compromissos assumidos, não em uma, porém em duas campanhas eleitorais.

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