Joseph Ratzinger, o jogador de dados

Sebastião Nery

RIO – Três dados de marfim e um copo de couro foi o que sobrou, quando os dois foram transferidos do campo de prisioneiros no Palatinado Superior ao campo maior de Bad Aibling, na escura floresta de pinheiros, onde os dois tentavam esconder-se, no fim da guerra, na Alemanha.

 Ratzinger: “Jamais atirarei em alguém”

Chovia muito. Escavaram um buraco na terra para se abrigarem. Quando chovia, ficavam sentados debaixo de uma lona de barraca. Falavam de Deus e do mundo. Os dois haviam sido seminaristas. Um efetivamente, e por muito tempo, o outro apenas substituto temporário. Um continuava crendo. Para o outro nada mais era sagrado.

PIOLHOS

Ambos estavam cheios de piolhos. Isso pouco preocupava. Os dois escreviam poemas, porém queriam subir na vida de um modo bem diferente. Ainda no campo maior de prisioneiros de Bad Aibling, três cigarros da marca Camel valeram um saquinho de cominho, que um mastigou recordando repolho com carne de porco temperada com cominho. Parte do cominho que negociaram ficou sob a lona de uma barraca, enquanto a chuva demorava e de quando em vez jogavam os três dados especulando acerca do futuro deles. Um se chamava Joseph, falava em voz imperturbavelmente baixa, até mesmo suave.

FUTURO

Um queria tornar-se isso, outro aquilo. Um dizia; há mais de uma verdade. O outro dizia: há uma única, a única. Um dizia não acreditar em mais nada. O outro citava um dogma atrás do outro. Um falava:  “Joseph, tu por certo queres te tornar grão-inquisidor ou chegar ainda mais longe”. Um sempre conseguia fazer alguns pontos a mais, e ao lançar os dados citava santo Agostinho, como se suas confissões estivessem deitadas diante dele na versão latina. Assim falaram e jogaram dia a dia, até que, por estar perto de casa, na região bávara, um foi liberado certo dia, enquanto o outro, por não ter um endereço garantido e por isso sem lugar para ir, teve de acabar o combate aos piolhos no campo de trabalhos forçados.

LATIM

Era preciso preencher o vazio com alguma coisa, ainda que fosse com o entulho de uma língua, que um dos dois camaradas no campo maior de Bad Aibling dominava e que também havia chamado de “dominadora do mundo por toda a eternidade”. Mais ainda: Joseph chegava a afirmar que sonhava segundo as regras irrevogáveis dessa língua. Sentados sob a lona de uma barraca, lançavam os dados para adivinhar o futuro, quando o futuro ainda parecia fresco como o orvalho. Os dois contavam vinte e um anos e já se faziam de adultos.

O PAPA

Essa história, muito mais longa e mais tensa, me foi contada em uma noite de vinho e dolorosas memórias de guerra, em Nuremberg, na Alemanha, em um jantar do SPD (Partido Social Democrata) alemão, no fim da campanha eleitoral de 1980, para a qual fomos convidados os representantes dos quatro partidos de oposição no Brasil: Ulysses Guimarães (PMDB), José Aparecido (PP), Jacob Bittar (PT) e eu (PDT). Aquele Joseph, um jovem de 21 anos, que jogava dados embaixo da barraca, era Joseph Ratzinger, o papa Bento XVI, que, como todos os jovens alemães de mais de 16 anos, inclusive ele e seu amigo, foram obrigados a ir para a guerra de Hitler, onde se encontraram já no fim.

GUNTER GRASS

Seu companheiro de barraca, de dados, de piolhos e de guerra era o poderoso escritor Gunter Grass, autor entre outros de “O Tambor”, que virou filme. E há pouco ganhou o Premio Nobel de Literatura da Alemanha por suas magistrais memórias (“Nas Peles da Cebola”, Editora Record),

Na sua viagem a Israel e à Palestina, chamaram Bento XVI de hitlerista, só porque foi mandado para a guerra. Como todos os jovens de seu tempo. Como os jovens brasileiros convocados em 1944 para a FEB. Sabiam os antigos que se conhecem os homens no jogo e na guerra. Quem quiser um retrato direto, verdadeiro, da personalidade, da simplicidade, da humildade, mas também da tempera e da firmeza de Bento XVI (- “Haja o que houver, mesmo que morra, jamais atirarei em alguém”, dizia ele na guerra) leia as fantásticas memórias de guerra de Gunter Grass. Também com 85 anos, continua vivo, lúcido, atuante, escrevendo.

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