Junto à Madonna de Kornmarkt

Percival Puggina

A mulher vestia um niqab preto, do tipo utilizado em países da Península Arábica. Niqab (máscara) é aquela vestimenta feminina muçulmana que deixa apenas uma fresta para os olhos. Embora tenha sido concebida em tempos anteriores a Maomé como uma das mais recatadas roupas com que uma mulher se pudesse vestir, a figura diante de mim se destacava em meio à colorida multidão de turistas das mais variadas origens.

De repente, num gesto rápido, que pretendia ser discreto, ela fez surgir do meio dos panos uma câmera digital. Levou-a aos olhos e, com apenas a mão esquerda (também coberta por luva negra), capturou a imagem perante a qual se comprimiam vários grupos de visitantes. A mesma que me levava, uma vez mais, até a praça Kornmarkt da encantadora cidade de Heidelberg.

Há ali pequena fonte sobre a qual se eleva uma escultura de Nossa Senhora. É a Madonna da Kornmarkt. Traz ao colo o Menino Jesus e tem sob os pés o mundo, representado por uma esfera dourada. O Menino segura longa haste encimada por uma cruz e com a outra extremidade fere uma serpente. Era diante dessa imagem que, como acontece a cada dia, todos os dias do ano, se encontravam os turistas em meio aos quais a mulher de niqab.

Poucos haveriam de saber que aquela Madonna é apenas cópia da obra original, preservada no museu de arte e arqueologia da cidade. Foi esculpida por Peter van der Branden, em 1718, a ordem do príncipe local empenhado em difundir o catolicismo. À época, outras Madonnas também foram inseridas na paisagem de Heidelberg e muitos protestantes, como consequência, abandonaram a cidade. Passados três séculos, esses acirramentos político-religiosos perderam sentido.

ENCANTAMENTO

As imagens, no entanto, continuam suscitando interesse e são motivo de encantamento aos milhões de visitantes dos mais variados credos que fazem turismo no Velho Continente. Esplêndidas obras com inspiração cristã estão em toda parte – nas fachadas dos prédios particulares, no centro das praças, nos afrescos, telas, tapeçarias e imagens que decoram prédios públicos. Estão nos museus (repletos de tais obras), e são, junto com catedrais, mosteiros e grandes palácios o carro-chefe do imenso negócio turístico da Europa.

 

Pois bem, observando a mulher de niqab e seu interesse em capturar a imagem da Madonna da Kornmarkt, percebi que, apesar da diversidade de credos provavelmente adotados por turistas de varias etnias, oriundos de diferentes recantos do planeta, ninguém ali estava de nariz torcido, sentindo-se afrontado ou ultrajado em sua sensibilidade com a imagem de Maria Santíssima. Nem com qualquer símbolo ou representação artística, de qualquer religião, em parte alguma do mundo. Bem ao contrário, a atitude civilizada, nesses casos, é de respeito e encantamento perante expressões da tradição religiosa e cultural de cada local.

Portanto, incivilizada é a atitude de pequenas minorias que, no Brasil, se declaram ultrajadas com a presença desses símbolos e obras em espaços públicos. Aliás, duvido de que, distantes da base, desfrutando de umas férias na Europa, não posem para fotografias aos pés da Coluna Mariana na Marienplatz de Munique, da Pestsäule (coluna em reverência à Santíssima Trindade) em Viena, ou ao lado de qualquer dos 30 santos que  adornam a belíssima Ponte Carlos em Praga. Aqui, porém, são inimigos de um crucifixo na parede.

 

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2 thoughts on “Junto à Madonna de Kornmarkt

  1. Senhor Percival Puggina, o que o comentarista descreveu é a pura verdade, aqui neste País tropical posam de ateus e outras coisas mais, quando chegam em outras paragens, longe dos olhares conhecidos, aí todo mundo sabe o que acontece.

  2. Como não admirar uma obra de arte de cunho religioso independentemente de crença. Esse reacionário articulista de baixo nível, que nunca chegará a Gustavo Corção, desconhece ou finge desconhecer que um recentemente falecido ateu e comunista brasileiro chamado Oscar Niemeyer projetou as belíssimas catedrais de Brasilia e nova do Cristo Rei em Belô, a igrejinha N.S. Fátima em Brasília e a de S.Francisco de Assis na Pampulha,em Belô. Vai orar nelas, apreciar os trabalhos em benefício do catolicismo que nos deixou o velho e talentoso ateu e não encha a paciência da gente com seus escritos ridículos.

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