Juros: bancos privados não cumprem determinação do governo

Pedro do Coutto

Reportagem de Gabriel Baldocchi, Folha de São Paulo do dia 14, excelente pela clareza do texto e colocação comparativa dos números, revela diretamente que os bancos não cumpriram, até agora, as determinações do governo Dilma Rousseff no sentido de reduzir, de fato, os juros que cobram mensalmente. Fizeram pouquíssimo.

Nos cartões de crédito, inclusive, não ocorreu recuo algum de novembro de 2011 a maio de 2012: 10,7% ao mês para uma inflação de 5 pontos ao ano encontrada pelo IBGE. As reduções que houve foram mínimas. Os cheques especiais, por exemplo, desceram de 8,4% para 8,2%. Os empréstimos pessoais de 4,4% para 3,6%. O crédito consignado em folha (aposentados e pensionistas do Serviço Público e INSS) passou de 2,2% para 1,85%.

O crediário oferecido pelas lojas comerciais, em média, passou de 5,4% para 4,7%. A média geral de todas estas modalidades – acrescenta Gabriel – recebeu ligeira redução: de 6,7% para 6,2%. Quase nada.

No Brasil, as taxas relativas a 30 dias são superiores à inflação anual. Impressionante. Nenhum povo no mundo, seguramente, paga tantos juros reais quanto o brasileiro. Os dados focalizados na reportagem publicada pela FSP são da Associação Nacional dos Executivos Financeiros. Insuspeitos, portanto. Eles trabalham para os banqueiros. Não, é claro, para os assalariados. É natural que assim seja. Porém este aspecto não substitui a injustiça social contida no ballet exibido no palco do jornal, um dos maiores do país.

Vale acentuar dois outros aspectos: há 179 milhões de cartões de crédito. No primeiro trimestre deste ano, através deles, foram movimentados 103 bilhões de reais. Mesmo sem considerar o aumento normal das compras no período de Natal, o resultado dos primeiros três meses do ano significa, feita a projeção, um movimento de pelo menos 412 bilhões até dezembro.A aceleração das compras por intermédio dos cartões é fantástica.

Há dois ou três nãos, o faturamento dos cartões era de 250 bilhões de reais por ano. Não estou querendo dizer que todo este volume seja objeto de refinanciamento. Não é isso. Porém não creio ser exagero considerar que tal operação abranja um quarto do movimento. Ou seja: mais de 100 bilhões a 10,6% ao mês. Por aí se constata o peso das taxas cobradas no mercado consumidor. A inadimplência está batendo, segundo li outro dia, a escala de 7,2 pontos. Não é alta.

Os preços e os juros em vigor em nosso país são incrivelmente elevados. E deve-se considerar que eles incidem sobre um total de compras que se eleva a 1 trilhão e 400 bilhões. Importante este número. Porque ele é superior a massa salarial do país paga a cada exercício, aos preços do IBGE de hoje. A massa de salários, incluindo os servidores públicos, fica contida em torno de 1 trilhão e 100 bilhões, no máximo. Pode-se calcular pela arrecadação do FGTS em2010: 61 bilhões de reais, Diário Oficial de 20 de julho de 2011, página 106. Como o Fundo de Garantia é resultado do pagamento de 8% ao mês sobre a folha salarial, basta multiplicar 61 bilhões por 12,5.

Mas os funcionários não têm FGTS, porém recebem vencimentos. Somando-se as parcelas, incluindo os que trabalham sem vínculo trabalhista algum, vamos chegar à cifra de 1 trilhão e 100 bilhões calculada por mim.

Mas este é outro assunto. O essencial da contradição global está na velocidade dos juros. Incontrolável, para os consumidores.

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