Karl Marx, Hemingway, Rui Barbosa, Carpeaux e Cony poderiam ser barrados?

Pedro do Coutto

Muito bom o editorial de O Globo de 7 de novembro, a respeito da questão do diploma para jornalistas, assunto já decidido por unanimidade, pelo Supremo Tribunal Federal, mas objeto de equívoco projeto de emenda constitucional no Senado. A profissão, especial em sua essência, reune emoção, impulso para o interesse coletivo, mistura de técnica e arte. A arte de informar, analisar, traduzir os fatos em linguagem acessível a todos, interpretá-los. Trata-se de profissão aberta a todas as formações. Não apenas a uma.

Quantos intelectuais e artistas a exerceram através da história? Cito alguns: o filósofo Hegel, Karl Marx, redator chefe da Gazeta da Renânia, Rui Barbosa, redator chefe do Jornal do Brasil, Hemingway, do Kansas Star e New York Times, William Schirer, do New York Times, autor de Ascensão e Queda do III Reich, Sartre, Carlos Drummond de Andrade, Oto Maria Carpeaux, Carlos Heitor Cony, Eugênio Gudin, Roberto Campos, Celso Furtado, Mário Henrique Simonsen. Não poderiam escrever?

Não faz o menor sentido restringir o acesso de figuras desse porte às páginas dos jornais que, no fundo, são as páginas e capítulos da história. Quanto mais livre for o ingresso no universo da criação, maior será em contrapartida a liberdade de se expressar a opinião. Sobretudo porque o jornalismo é, também, um conjunto de técnicas iluminadas pela percepção humana. E não existe aquele ou aquela capaz de entender de tudo. O problema, como dizia Antonio Houaiss, não é saber tudo. É, isso sim, saber procurar a informação correta e utilizá-la com honestidade. Incluída nesta tanto a moral quanto a intelectual.

O jornalismo é um processo. Quem o aprende, frase de Kissinger, depois ensina a si mesmo. E aos outros.E se, na essência absoluta, o jornalismo parte da liberdade e expressa essa mesma liberdade, de modo geral e amplo, nele não podem estar contidos obstáculos para o acesso a ele. Deve ser como na arte e no esporte. Quem tem vocação e qualidade permanece. Quem não possui tais fatores, sai. Nem chega a ser cortado. Afasta-se do trabalho por natureza. Sente que aquela não é sua praia.

Pelo contrário, quem se emociona com o que escreve, quem acorda cedo para ir às bancas ver se seu texto foi publicado, permanece nas redações que são sobretudo usinas de produção e transformação do pensamento. E não só na parte relativa aos textos, o que por si já é definitivo. Mas também face à percepção visual da imagem. As imagens costumam ser muito fortes. Nós todos devemos prestar muita atenção a elas.

Ao longo de 57 anos de jornalismo, já vi muitas vocações surgirem espontâneas e naturalmente nas máquinas de escrever ontem, nos computadores de hoje. As mais fortes foram reveladas pelos que não possuem ou possuíram diploma, do que pelos que o possuem. O STF já decidiu a questão. Fim de papo.

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Um outro assuntoO repórter Evandro Correa, O Globo também de quarta-feira, revelou que o publicitário Duda Mendonça, contratado para fazer a campanha no sentido de que o plebiscito de domingo no Pará permita a criação dos estados de Tapajós e Carajás, abandonou a tarefa na reta de chegada e foi para Portugal.

Sentiu a eleição perdida, já que o IBOPE e Datafolha apontam 58% de rejeição à ideia. Mas deveria ter permanecido até o fim. Não se pode achar que a vitória é uma obrigação. Mas o mais importante, como digo sempre, é a força do conteúdo. O marketing é o transporte do conteúdo, não sua criação. Ninguém pode fazer nascer conteúdos. Pode-se expressá-los, e só. Ilusão pensar o contrário. A derrota de Mendonça no Pará é mais uma lição do destino. Não só para ele, mas para todos, de modo geral.

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