Le Monde e New York Times entrevistam Jorge Béja sobre a Olimpíada

Charge do Thomate, reprodução da tvvaletudo.com.br

Carlos Newton

Não resisti à tentação e perguntei ao jurista Jorge Béja como ocorreram as entrevistas que ele deu na quinta-feira aos jornais Le Monde e The New York Times a respeito de sua carta aberta aos dirigentes do Comitê Olímpico Internacional, que a Tribuna da Internet publicou e o comentarista Ednei Freitas verteu para o idioma inglês e espalhou pelo mundo via internet, facebook e outros meios que ele sabe bem manejar.

Béja me contou que os repórteres do Le Monde e do NYT ligaram primeiro lá para seu escritório, cujo endereço e telefone estão no Google. A secretária Leonor atendeu, pediu que ligassem meia hora depois. Nesse ínterim, ela ligou para o jurista e lhe perguntou se poderia fornecer o telefone da casa dele aos jornalistas estrangeiros.

A primeira ligação foi do jornal francês. E o americano telefonou mais tarde. As perguntas quase foram as mesmas. O jornalista do Le Monde disse que estava ligando de Paris. Depois de concluída a entrevista, ele perguntou se um dos fotógrafos franceses que estão no Rio poderia lhe apanhar para ir ao Corcovado ou ao Parque Olímpico e tirar fotos. Béja respondeu preferir que ele fosse ao escritório.

“O fotógrafo foi até lá, fez um monte de fotos, agradeceu e se foi. Como o escritório fica pertinho da Praça Mauá (Rua Acre), desci com ele, fomos a pé até lá e ele bateu fotos tendo ao fundo a inscrição enorme “Cidade Olímpica”. E na mesma hora um telão estava exibindo o jogo do Brasil contra a África do Sul”, contou o jurista.

A CARTA ABERTA – Os dois jornalistas perguntaram se Béja esperava que sua carta aberta fosse lida pelos dirigentes do COI. Respondeu que sim, assinalando que isso já seria o suficiente, mesmo sabendo que eles não iriam atender a seu pedido e irem logo embora daqui.

“Expliquei que o Brasil é um país relativamente novo e que, mais de 500 anos depois de seu descobrimento, ainda está em formação. Disse que o tamanho do país é um dos obstáculos para o estabelecimento efetivo do conceito de Ordem e Progresso, que é o lema da bandeira nacional”, afirmou Béja, acrescentando:

“Disse também que somos hospitaleiros, cosmopolitas e nosso povo é fortemente emotivo. Um leve afago comove 200 milhões de brasileiros, da mesma forma que uma leve descortesia gera indignação e protesto. Que os dirigentes do COI foram estúpidos conosco. Chegaram aqui dando ordens, como se nós ainda fôssemos seus colonizados, numa espécie de relação entre suserano e vassalo. Que o príncipe Albert, que tanto reclamou do atraso das obras, ele é soberano em Mônaco. Que nós, brasileiros, não somos seus súditos”.

UM ERRO DO COI – Nas entrevistas, Béja declarou que foi um erro do COI eleger o Rio para sediar a Olimpíada de 2016, porque não temos infraestrutura para ser palco de tão grandioso evento.

“Eu disse também que o COI sabia da situação econômica, política e social do país e, mesmo assim, seus dirigentes aceitaram a  temerária candidatura da cidade e a elegeram. Expliquei que a situação anterior, quando o Rio se candidatou a sediar a Olimpíada de 2004, se não é a mesma 16 anos depois, é muito pior. E que tudo isso constou do relatório que entreguei pessoalmente ao COI na década de 90, mostrando e comprovando a realidade do Rio de Janeiro e apelando para que a cidade não fosse escolhida para sediar a Olimpíada de 2004”, disse o advogado carioca.

Os repórteres quiseram saber tudo sobre essa comunicação que Béja fez ao COI. Ele então explicou que agiu por iniciativa própria ao criar o Comitê Rio-Real. E lhes disse que decidiu ir a Lausanne e entregar pessoalmente o relatório. “Ninguém me pediu. Ninguém me patrocinou. Os custos da viagem à Suíça foram por conta própria”, afirmou.

AGIU COMO CIDADÃO – O jurista disse aos repórteres do Le Monde e do The New York Times que a carta aberta aos dirigentes do COI, publicada pela Tribuna da Internet, também foi feita por iniciativa própria.

“Expliquei ter agido como cidadão carioca e advogado. Que a Olimpíada não deixará legado, porque todas as obras foram feitas às pressas e com dinheiro do povo. E obras, melhorias e benfeitorias feitas com o dinheiro do povo não são legados, mas realizações deste próprio povo. Que a população do Rio vai pagar muito caro com a Olimpíada. O que restará depois será um pesado fardo. Que é grande o risco da Prefeitura, nos próximos anos, não ter dinheiro para pagar o funcionalismo e prestar os serviços essenciais que a população precisa”, assinalou, acrescentando:

“Também afirmei a eles que, a exemplo da FIFA, agora o COI e suas instituições agregadas é que vão ganhar fortunas, como ocorreu na Copa do Mundo de 2014 e vai acontecer na Olimpíada. Ganharão fortunas e não pagarão um centavo de imposto, porque duas leis recentemente aprovadas liberaram o COI e seus filiados do pagamento de todos os tributos que os brasileiros pagam. E que essa benesse fere a Constituição do Brasil, que proclama a igualdade de todos diante da lei”.

ZEFIRELLI E MADONNA – Béja contou também que, em seus 44 anos de advogado, conseguiu na Justiça que a prefeitura não pagasse 6 milhões de dólares ao cineasta Franco Zefirelli, que estava hospedado no Rio, para organizar o Réveillon 94/95 na praia de Copacabana. “Quando  acompanhei a diligência judicial para entregar a ordem a Zefirelli, que também era senador italiano, quase apanhei dele dentro de sua suíte, onde também estava o cantor Gilberto Gil”, contou.

Disse que também conseguiu na Justiça que a cantora Madonna, ao se apresentar no Maracanã, não portasse a bandeira brasileira. Isto porque a cantora, quando desembarcou no Rio enrolada na bandeira, prometeu fazer o mesmo que tinha feito dias antes na capital San Juan, quando esfregou a bandeira de Porto Rico na vagina.

“Quando fui ao levar a intimação à cantora do Hotel César Park, junto com um oficial de justiça, um agente da Polícia Federal e um intérprete, Madonna foi educadíssima. Assinou a intimação e garantiu que iria cumpri-la. E ainda me deu um beijo”, disse.

DALAI LAMA NO RIO – Jorge Béja contou que também foi por iniciativa própria que deu entrada da Justiça com um habeas corpus e com isso conseguiu que o Dalai Lama e sua comitiva viessem participar da Rio Eco-92, uma vez que o governo brasileiro (Collor de Mello), cedera às pressões da China e não concedeu o visto de entrada no país do líder tibetano.

“Foi através da concessão do habeas corpus que Tenzin Guiatzu, o Dalai Lama, conseguiu vir para a Eco-92. Quando chegou ao Rio, ele me chamou até a casa do cardeal Eugênio Sales, no Sumaré, me agradeceu e nos deu uma bênção, à minha esposa e a mim. E nos três oramos juntos”, contou o jurista, que no final das entrevistas perguntou quando as matéria seriam publicadas. “Ambos, Le Monde e NYT disseram que me avisariam. Os repórteres foram muito gentis. Quanto à Olimpíada, eu disse a eles que vou assistir tudo pela televisão. E se os dirigentes do COI pedirem desculpas, aceitarei”.

20 thoughts on “Le Monde e New York Times entrevistam Jorge Béja sobre a Olimpíada

  1. A presença do Dr.Béja como articulista e comentarista da Tribuna da Internet a enobrece, a enaltece, e a coloca como um dos principais blogs no Brasil e o melhor, indiscutivelmente, em se tratando de independência editorial!

    Postar qualquer registro ao lado deste jurista renomado, cavalheiro, bondoso, uma alma caridosa pelo tanto que tem feito pelo próximo, significa compartilhar um espaço único, privilegiado, tanto pelo que se aprende com ensinamentos que o célebre advogado escreve como, lá pelas tantas, do alto da sua simplicidade, ainda lemos palavras de elogio ou incentivo pelos textos publicados de vários autores.

    As entrevistas concedidas a dois órgãos da imprensa mundial, traduz a importância de sua opinião em assuntos relevantes, que se relacionam com a Olimpíada, diante do fato que carecemos de condições como sede, e o custeio da obra que acarretou ao povo uma despesa imensurável pela corrupção existente, a maldita desonestidade que caracteriza o político e governantes brasileiros!!

    O Dr. Jorge Béja agiu como cidadão e patriota.
    Não que rejeitasse os jogos, mas a forma como foram trazidos para o País, se o COI sabia da crise política e econômica que faz padecer o povo porque desempregado, sem poder aquisitivo, inadimplente e pagando juros extorsivos ao sistema financeiro selvagem, desumano, que é este criado pela elite mais nociva e nefasta que temos!

    Parabéns ao Dr. Béja em meu nome e da minha cidadania, pois fui exemplarmente representado por um brasileiro junto à imprensa mundial quanto aos protestos que fazemos sobre o Brasil sediar um evento de importância internacional, que reúne em torno de si a maioria das nações deste planeta, que deseja que seus atletas sejam bem acolhidos, da mesma maneira que o povo do País sede sinta-se feliz em tê-la em seu território, o que não acontece, lamentavelmente, pelo preço altíssimo que teremos de pagar.

    Um abraço, Dr.Béja.
    Saúde e Paz!

    • Tenho que discordar do Dr. Béja. Se quiser parar de ser chacota mundial o povo brasileiro como um todo deve ir ao limite pra por fim às pataquadas tupiniquins. Do contrário, continuarão a ser tratados como chacota mundial !!!

      • Lucas, discordo de você. Não acho que sejamos tratados como chacota mundial.

        Hoje vi Hollande todo à vontade,, com quatro seguranças de porte pequeno em volta, e entre seus conterrâneos.

        Estava solto, satisfeito. No bom espírito bem brasileiro.

        Quando alguém fizer chacota a gente reclama.
        Mas lembre-se: nós mesmos somos os primeiros a diminuir o país.

        Não poderíamos ter gasto tanto dinheiro. Por outro lado, fui ao shopping tomar uma sopa. Quando cheguei, estacionamento lotado. Ao sair, estacionamento esvaziado. Por que será?

    • Somente um país em colapso moral teria a suprema desfaçatez de dilapidar fortuna imensa em atividade lúdica com caríssimos cenårios ilusórios, enquanto sua populaçao, á míngua do mínimo necessário á sobrevivência, rende-se á deterioraçao social galopante em todos os sentidos, superando-se a cada momento em níveis de violência e insegurança, só comparáveis á sua crescente carência educacional e sanitária. Reflitamos, pois. Abracos fraternos.

    • Bendl e Tarcísio, estou torcendo para que o Olimpíada transcorra sem o menor incidente e na plena paz. Um detalhe importantíssimo que deveria ter dito aos jornalistas estrangeiros. Que somos privilegiados. Nossas antepassados não tiveram — e nem as gerações futuras terão — o privilégio de ver em nosso país, em nossa casa, pertinho da gente, os Jogos Olímpicos, mesmo a grande custo, mesmo sem estrutura e na situação em que se encontra o povo brasileiro: violência urbana de um lado, desordem, corrupção e incompetência administrativa de outro. Mas torno a dizer: o povo do Rio não recebe legado algum. O que fica é um pesado ônus, um fardo que será muito difícil de suportar. Grato pelas palavras. Grato pelo carinho.

  2. Dr. Béja, cidadão do mundo, merece todas as homenagens e respeito do mundo, em vida.

    Depois, como outro poeta carioca da música brasileira, deseja somente flores.

    Nada mais…

  3. Mais uma vez Parabéns ao civismo do Dr. Béja.
    O incrível é que pouca coisa tem saído em nossa imprensa, se comparado coma do exterior.

    (…)…“O espírito olímpico dos atletas é a única esperança de redimir os jogos manchados”, diz o título do inglês “The Guardian”. Para o correspondente do jornal, às vezes dá a sensação de que “a cidade e o próprio Comitê Olímpico Internacional estão à beira do caos”. Ele destaca o esforço do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, para mostrar que os benefícios para a cidade “não são só para inglês ver”.

    No jornal inglês, o Rio é descrito como cidade dos extremos, onde “a enorme riqueza coexiste lado a lado com a pobreza e o cenário deslumbrante esconde uma infraestrutura decadente”. “Os organizadores precisam superar o cinismo compreensível e a indiferença de seu próprio público para um evento esportivo que não toca o coração brasileiro da mesma forma que a Copa do Mundo fez”, ressaltou.
    —–
    (…)…O “Le Monde” cita a rejeição de metade da população brasileira aos jogos, a crise econômica, social, política e moral, os escândalos de corrupção e o fato de o Rio ter decretado falência. Escreveu ainda que “o legado pode se transformar em fardo olímpico para os habitantes do Rio”.
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    Ao visto essa é a realidade…

    http://esportes.estadao.com.br/noticias/jogos-olimpicos,paes-inaugura-trecho-final-de-obra-olimpica-horas-apos-mulher-ser-morta-na-regiao,10000067198

  4. Caro Newton,

    Excelente artigo! A imprensa está mais interessada em aproveitar o momento do que em informar a população.

    Quem sabe, ainda dá tempo de reverter essa isenção total de impostos e pressionar os patrocinadores.

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