Lêdo Ivo ensina a deixar tudo para trás

O jornalista, cronista, romancista, contista, ensaísta e poeta alagoano Lêdo Ivo (1924-2012) aconselha (queime tudo o que puder) no poema “A Queimada”, pois a verdade não é para ser dita, ela é o eterno segredo.
A QUEIMADA
Lêdo Ivo
Queime tudo o que puder:
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupas sujas
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência
e anuncia a arterioesclerose
os recortes antogos e as fotografias amareladas.

Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.
Seja como os lobos: more num covil
e só mostre à canalha das ruas
os seus dentes afiados.

Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.
Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.

Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita.

 (Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

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2 thoughts on “Lêdo Ivo ensina a deixar tudo para trás

  1. Carlos Newton:

    Obrigado a você e ao Paulo Peres por nos enviar nesse domingo primaveril, o poema A QUEIMADA do feiticeiro da palavra, o inconfundível e incomparável Lêdo Ivo.

    É possível ler nas entrelinhas de cada palavra, o dia-a-dia de nossas vidas, o perigo que corremos em cada esquina. Então, se abrires seus segredos a vulnerabilidade do ser fica ainda mais exposta.

    Hoje mesmo pude perceber na fila da padaria, a maldade contida no inconsciente, até das pessoas humildes do subúrbio. Um cliente teve um problema no cartão, então a fila não andou, na verdade parou no aguardo da resolução do caso. Logo começaram as reclamações dos apressados, que deram várias sugestões: inexperiência da menina do caixa, colocar mais uma atendente, separar os clientes da padaria e os outros da lanchonete, sim porque não há mais as padarias somente, sempre tem um bar agregado.

    E nos ônibus interestaduais, o lobo ao lado se apossa do encosto como um grileiro do assento, liga a luz, o ar condicionado, fala todo o tempo no celular, liga o rádio particular na música de sua preferência e na altura de seus ouvidos raros.

    É preciso mesmo queimar as coisas, os papéis, tudo aquilo que não usamos mais, porém, os livros devemos doar. Saudades do poeta e de suas Confissões.

    Há um perigo em cada esquina, meu irmão!

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