Leis e costumes ultrapassados?

Carlos Chagas

Quando, numa sociedade, a maioria de suas categorias sentem-se prejudicadas pelas leis e pelos costumes vigentes, apelam dos costumes para a razão e das leis para a natureza, afirmava Voltaire, morto antes da queda da Bastilha e sem imaginar o que aconteceria nas estepes, mais de um século depois. É assim que  eclodem as revoluções sociais, como na França em 1789 e na  Rússia em 1917. Depois, a vida segue seu curso imprevisível e desemboca em situações completamente inusitadas, como as que geraram Napoleão e Stalin. O importante nos movimentos sociais, no entanto, é atentar para o  ponto de ebulição lá no começo do processo, quando o passado se desfaz em mil pedaços e o futuro não pode ser imaginado.

Estaríamos chegando ao  prenúncio da ruptura  promovida pelos diversos  segmentos  oprimidos e tornados  insurgentes,  diante da opressão não mais tolerada da   ordem política e social  anterior? Pode ser, na dependência de as manifestações de rua das últimas semanas terem sido apenas o   soluço  de um organismo maltratado  ou, no reverso da medalha, o sinal do início de uma reviravolta profunda nos costumes e  nas leis   até então vigentes?

Respondam os sociólogos, os marqueteiros e até  os videntes de sempre, mas a verdade é de podermos  ter chegado ao limiar de mudanças profundas.  Ao esgotamento de ser o país dominado por uma classe política  corrupta, por um sistema econômico conduzido pela ânsia do lucro a qualquer custo, por instituições  incapazes de produzir justiça, equidade, serviços e felicidade geral. Esses componentes deteriorados se esgotaram, ainda que se ignore como e pelo que serão substituídos ou sucedidos. É um fato a  falência dos valores e das regras  até então impostas ao cidadão comum, não apenas no Brasil, mas no planeta inteiro.

O brado “basta!”, de “chega!”, ecoa do Hemisfério Norte antes rico até o Hemisfério Sul, pretensamente em desenvolvimento. Lá e cá o povo se insurge, verificando perigosamente como é fácil  intimidar os responsáveis pelos privilégios e a   opressão que a todos assola. Não se reivindica mais liberdade, pelo menos no Brasil, porque ela acaba de ser conquistada nas ruas. O recuo dos donos do poder é flagrante  quando se mostram incapazes de conter os protestos generalizados, tentando  absorve-los e travesti-los, apresentando-os  como  democráticos,  através da mentira de   evidenciarem   o acerto de suas políticas.

Não é nada disso. As manifestações se fazem contra eles, governantes, parlamentares, empresários, especuladores, patrões, esbirros, dirigentes, donos da terra, reitores e quantos outros exercem funções de controle sobre a massa. Todos recebem  a rejeição por conta de tantas décadas de submissão imposta à sociedade como um todo, assim como  a cada uma das suas principais categorias, isoladamente.

Vale repetir, os dias atuais podem exprimir apenas um soluço, mais uma dessas costumeiras reações que não progridem,   esgotam-se e se desfazem como bolhas de sabão. Mas se não for assim? Se estivermos na ante-sala de surpresas imprevistas e inusitadas, amargas ou felizes? Fica para as próximas gerações verificar se redundarão em Napoleão ou Stalin, se é que estamos  mesmo assistindo a mais uma dessas mutações que apenas a Humanidade pode produzir…

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