Lembranças da época em que ninguém tinha plano de saúde

Ofelia Alvarenga

Quando eu era ‘menina pequena’ (ia dizer lá em Barbacena, pra imitar o Antonio Carlos, pai da Glória Pires, na Escolinha) aqui no Rio mesmo, onde nasci há 65 anos, completados em setembro deste ano, não me lembro de ter ouvido falar em planos de saúde. Os hospitais públicos atendiam muito bem, embora eu não os tivesse usado por falta de necessidade. A catapora e outras doenças infantis foram tratados pelo médico particular, que ia em casa.

Mas meu irmão, por exemplo, foi tratado em hospital público. Um dia, muito arteiro, ele, que é engenheiro e mais velho que eu, foi para os fundos da fábrica do meu pai e decidiu construir uma bomba, não para fazer o mal, apenas construir. Raspou sei lá quantas cabeças de fósforos e socou a pólvora dentro de um cano, quem sabe pra caber mais, ele é que saberia dizer. A pólvora explodiu e ele perdeu um pedacinho do polegar (ainda sobrou um pedaço de unha). Meu tio Júlio, irmão do mau pai, que estava na fábrica naquele momento, o levou ao Samdu, acho que ainda tinha este nome. Funcionava que era uma beleza.

Quem leu Baú de Ossos, do maravilhoso memorialista e médico Pedro Nava, vai ver que o pai dele, Nava, um médico cearense (Nava era de Juiz de Fora, MG) teve pneumonia por sair com mau tempo para atender os pacientes em casa. O pai do Nava era médico do Samdu.

Se não me engano, li o livro faz tempo, ele acabou morrendo por conta dessa pneumonia, preciso reler o livro.

Naquele tempo, a população era pequena, os carros poucos. Plano de saúde? Nenhum, que me lembre. Gostaria mesmo de saber qdo foi que eles começaram a existir. Se hoje dependemos deles, dos planos, e eu defendo o meu, apesar dos aumentos, porque nunca me recusou nada, foi porque alguém viu nessa criação uma oportunidade de ouro. País crescendo, população aumentando, hospitais não dando conta de tanta gente.

É uma conta de aritmética caipira, como tão bem gostava de fazer o tio do meu pai, seu Benjamim. O dois mais dois são quatro. Se cabem quatro e chegam cinco, sobra um. O país cresceu muito e o SUS foi uma maneira de aliviar os hospitais públicos da superpopulação. Mas essa desonestidade e enganação que atribuem ao Lula está nessa mesma população que reclama dos serviços. Há desvios de material nos hospitais, o que onera qualqur atendimento. Roubam até papel higiênico!

Por outro lado, estive no Salgado Filho para visitar um pintor e antigo empregado do meu pai, que, diabético, precisou retirar três dedinhos do pé e extrair a safena desse lado do pé, e o que vi (há pouco mais de um mês) foi uma pequena enfermaria com cinco pacientes. Uma sala bem pintada, limpa, o pintor limpinho, com o pé bem enfaixado e, detalhe (ou pormenor, para evitar o galicismo), só bebia água mineral de copinho! Nem os hospitais particulares atendidos por planos de saúde oferecem água mineral aos pacientes, e olha que estou falando dos melhores hospitais do Rio. O que vem pro quarto são aquelas jarras de vidro com água de filtro.

Os médicos, os bons médicos, fazem milagres. Vão lá no Instituto de Traumaortopedia, no Centro, para ver como trabalham. Meu primo teve um acidente na Ponte Rio-Niterói e foi levado pra lá, todo quebrado. Que atendimento, que trabalho fizeram com ele…
A emergência dos hospitais públicos é que não consegue dar conta da demanda, é um fato inegável para o qual não ofereço solução porque não tenho a solução. Mas sei de uma coisa: nos EUA todo mundo é obrigado a ter plano de saúde, não é não? Obama quis melhorar a saúde por lá e não conseguiu. Como não? Um país tão rico que já não consegue exportar toda a sua produção de tão grande que ela é?

Vamos pensar em soluções, quero dizer, os políticos, porque não faço parte do time. Mas dar pedradas a torto e a direito, sinceramente, não está com nada.

Lula é um vencedor, tem todo o direito de ser vaidoso por aquilo que foi, fez, conseguiu se tornar. Não teve o mesmo berço de outros que ocuparam o mesmo cargo dele e pior, muito pior fizeram.

Devemos cobrar, sim, devemos. Mas a saúde no Brasil, país tão grande e de tantas desigualdades diminuídas no governo Lula, é um capítulo doloroso da nossa história. Doloroso porque doença é sinônimo de dor. Doloroso porque causa dor em quem assiste o desenrolar de uma novela com desfecho que não se sabe como terminar. E aí congela-se a imagem, como fazem certos diretores de cinema quando não sabem que fim dar à história. Fica por conta da imaginação de cada um.

 

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