Lembranças da seleção Brasil-Argentina

1939, Estádio do Vasco. 1946, Monumental de Nuñes.
2009, hoje, na estranha Rosário, haverá futebol de verdade?

1946, a tradicional Copa. Buenos Aires. Na última, no estádio do Vasco, 1939, o Brasil perdeu de 5 a 1, num domínio irrefutável. O técnico do Brasil, Carlos Nascimento, não conseguiu organizar a seleção, nem devia ter sido escolhido.

Mas não foi a derrota que provocou o choque que interrompeu a disputa da Copa Roca. A Polícia Especial, com aquele uniforme vermelhíssimo, era absoluta como Segurança do Estado Novo, a ditadura implacável.

(Em 1936, num julgamento de Prestes no Tribunal de Segurança Nacional, um desses policiais violentíssimos e poderosos, deu um bofetão no rosto do líder comunista. O que levou Sobral Pinto, designado para defender Prestes, a requisitar a Sociedade Protetora dos Animais, não havia jeito de fazer qualquer defesa.

Se esses policiais, num “tribunal” batiam num líder nacional, o que não fariam (fizeram) com jogadores?)

A Copa era jogada de 2 em 2 anos, não havia mais clima para coisa alguma. Dirigentes esportivos importantes (diferentes dos de hoje) resolveram recomeçar a disputa. Foi marcada para março de 1946, no Monumental de Nuñes. (Então fechado apenas de um lado, hoje está totalmente concluído).

O chefe da delegação era o grande Ciro Aranha, amigo do jovem repórter, que era então da importante revista “O Cruzeiro”, digamos correspondendo à Organização Globo, sem televisão. Ciro me convidou para ir com a delegação, naquela época não era como hoje, quando vão (justamente) 300 jornalistas, eu era o único, sempre ao lado de Ciro Aranha.

O clima era de vingança, 1946 represália a 1939. Logo que entramos no estádio, e nos acomodamos, Ciro me disse: “Não há clima para jogar futebol”, concordei inteiramente. Gritavam: “La cabeza de Procópio, la cabeza de Procópio”. E ele em campo.

Não foi um jogo e sim carnificina. Os argentinos batiam mesmo, Zizinho, Heleno de Freitas e o atacadíssimo Procópio, revidavam, não se intimidavam de maneira alguma. Terminou o primeiro tempo 0 a 0, nada de futebol.

Figura excelsa, Ciro Aranha não disse nada, não percebi na sua postura, algo de anormal. Mas chegando ao camarote, chamou o presidente da Federação Argentina, e o da Liga Sul-Americana, disse com a maior calma: “O Brasil não voltará para o segundo tempo, não existe o mínimo de condições para jogar futebol”.

Pânico geral, apelos, pressão sobre o chefe da delegação, que ficou impassível.

Chamaram então o Chefe de Polícia, o secretário do governo, e Ciro nada. O Chefe de Polícia disse a Ciro Aranha: “Se o Brasil não voltar a campo, não haverá o mínimo de segurança para os jogadores ou para a delegação”. Resposta de Ciro: “Isso é problema dos senhores”.

O tempo foi passando, ouvíamos os gritos da multidão, surpreendentemente chega o Cardeal de Buenos Aires, chamado pelo presidente da Federação. Vai ao camarote, Ciro católico de convicção, beija o anel do Cardeal, é abraçado carinhosamente por ele.

Do Cardeal para Ciro Aranha: “Meu filho, não podemos ser intransigentes diante de fatos que não podemos resolver. É apenas um jogo de futebol, deixemos que termine, não exasperemos a multidão”. Ciro não disse uma palavra, beijou o Cardeal, ficaram abraçados um bom tempo, Ciro disse apenas: “Vamos voltar”.

Não podia ser diferente, e o público não perdoou a paralisação de mais de uma hora. Perdemos por 2 a 0, os dois gols do bigodudo Mendez, aliás um belo jogador.

***

PS- O Cardeal viu o segundo tempo no camarote com o chefe da delegação brasileira. E o clima de hostilidade estava em tal exaltação, que voltamos para o hotel no carro com o Cardeal.

PS2- Mas antes de sairmos, Ciro Aranha fez questão de ir ao vestiário. Ver como estavam os jogadores. No dia seguinte, bem cedo, voltamos ao Brasil.

Hoje, 63 anos depois, numa Rosário ainda mais aguerrida, haverá cordialidade, o lema será vencer ou perder?

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