Lembranças de uma raposa felpuda

Carlos Chagas

Tancredo Neves, presidente eleito, instalado na Granja do Riacho Fundo, atormentava-se com  as dezenas de pedidos e de exigências de seus aliados para integrar o ministério. Por isso, até a véspera do dia em que tomaria posse, guardava suas escolhas a sete chaves, no máximo tendo participado ao escolhido que faria parte do governo. Mas exigia segredo absoluto,  sob pena de transformar-se em ex-futuro ministro.

Aureliano Chaves, de estopim curto, já convidado para as Minas e Energia, irritava-se dia a dia diante das indagações que não podia responder. Em dado momento não aguentou e pediu a Itamar Franco que dissesse a Tancredo: ou anunciava logo o ministério, e a sua escolha, ou romperia com o novo governo, rejeitando a indicação.

O presidente eleito ficou em sinuca de bico. Ainda não podia revelar sua equipe, com diversas opções a definir, mas precisava evitar a todo custo um racha daquela magnitude.

Como se a imprensa fizesse plantão permanente nos portões de entrada da granja, foi até lá, como por acaso, ouvindo incontáveis indagações dos repórteres. Respondeu apenas uma, aliás, das menos importantes,  se cotejada com as dúvidas ministeriais:

“Dr. Tancredo, quem será o presidente da Petrobrás?”

Resposta pronta: “Perguntem ao dr. Aureliano…”

E retirou-se meteoricamente, sem responder mais nada.  Pouco depois, veio a explicação. O repórter que fez a pergunta era amigo de Tancredo e aceitou a sugestão levada por Ronaldo Costa Couto, também futuro ministro, igualmente  comprometido com o silêncio. Estava tudo combinado para que Tancredo desse  satisfação ao ainda vice-presidente da República, evitando uma crise, mas sem afirmar diretamente  que ele seria, como foi, ministro das Minas e Energia. Golpe de mestre, de raposa felpuda.

Hoje esse episódio não poderia repetir-se, porque o presidente da Petrobrás não é indicado pelo ministro das Minas e Energia, mas pelo presidente da República…

DÉDALO E A JUSTIÇA

Dédalo estava exilado numa ilha do mar Egeu, junto com seu filho Ícaro.  Recolheu penas de mil aves, colou-as com cera e fez dois pares de asas. Antes de fugirem, recomendou ao filho para não aproximar-se muito do sol, que derreteria a cera. O jovem entusiasmou-se em poder voar, subiu muito e suas asas se desfizeram, precipitando-o para a morte.

Estátuas de Dédalo podem ser vistas em muitos museus da Europa, mas uma delas, em Atenas, chama a atenção. Porque uma  grossa corrente prende suas pernas  ao pedestal. A explicação é para que Dédalo não saia voando outra vez.

A corrente faz falta na estátua da Justiça, postada diante do Supremo Tribunal Federal e agora, por ironia, cercada por montes de grades desde a semana passada. A segurança explicou  os cuidados por conta  da possibilidade da invasão da mais alta corte nacional de justiça por baderneiros. Evitava-se a depredação e a pichação da imagem sagrada da Justiça.

Com todo o respeito, mas faltou a providência principal, que seria acorrentar aquele símbolo de olhos vendados e balança nas mãos. Porque qualquer dia a Justiça alça voo,  mesmo sem asas.  Também, para que ficar lá?

JOSÉ DIRCEU FICA COM SÓCRATES

Não tem sido poucas as sugestões a José Dirceu para que antes de seguir para a cadeia busque asilo numa embaixada amiga. Seria preferível o exílio à condenação. O ex-chefe da Casa Civil lembrou o exemplo de Sócrates, que condenado à morte recusou a solução dada por muitos amigos, de exilar-se de Atenas. O velho mestre respondeu: “O exílio é pior do que a morte”. E preferiu tomar cicuta.

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2 thoughts on “Lembranças de uma raposa felpuda

  1. Não tendo ZD a coragem sufuciente para tomar cicuta o mesmo irá pular a cerca de uma embaixada amiga petista, CUBA, BOLIVIA, VENEZUELA, ETC. ANOTEM. QUEM VIVER VERÁ.

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