Lembranças e reflexões

Lembranças e reflexões

Tostão (O Tempo)

Ontem, dois dias antes do jogo contra a Itália, foi lançado, em Salvador, o livro “82: Uma Copa, 15 Histórias”, uma seleção de contos de poetas e escritores, organizada por Mayrant Gallo, sobre a tragédia de Sarriá (5 de julho de 1982). Os autores contam o que fizeram e o que sentiram no dia do jogo. Tive o prazer de fazer a orelha do livro.

Na época, terminava meu primeiro ano de residência de Clínica Médica, no Hospital das Clínicas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Trabalhava e estudava muito. Não tinha tempo para acompanhar futebol. Mesmo assim, troquei meus plantões para ver a seleção brasileira. Foi triste a derrota.

O operatório Dunga disse que não entende por que a seleção de 1982, que perdeu, é mais festejada que a de 1994, que venceu. Ele nunca vai entender.

Discordo que a derrota de 1982 foi o motivo da transformação do futebol, para pior, e que todos passaram a seguir a pragmática Itália.

O futebol mudou no Brasil, a partir da Copa de 1970. A seleção que encantou o mundo foi a grande inspiradora do futebol moderno. Por causa da excelente preparação científica, revolucionária para a época, surgiram, progressivamente, em todos os clubes, grandes comissões técnicas, com vários especialistas, além de excelentes estruturas profissionais, de treinamento e de apoio aos atletas.

Com isso, houve uma supervalorização do jogo tático e físico, em detrimento do talento e da improvisação. Os técnicos tomaram conta do futebol. O jogo ficou feio e ruim.

Proliferaram também as discussões, inúteis, que continuam até hoje, entre futebol de resultado versus futebol bonito. Quem joga bem costuma jogar bonito e vencer. José Miguel Wisnik chamou o período entre 1974 e 1994 de “intermezzo”. Coincidentemente, o Brasil não ganhou um único título mundial. A seleção de 1982 foi uma exceção nesse período de declínio.

A partir da Copa de 1994, o futebol teve altos e baixos. Melhorou nos últimos dez anos, especialmente entre os times da Europa, que contrataram os melhores jogadores do mundo, formaram campeonatos organizados e com excepcionais gramados, e passaram a jogar em um estilo mais agradável, de troca de passes. As grandes equipes são melhores que as seleções. No Brasil e na América do Sul, por causa da saída dos melhores atletas, ocorre o contrário.

O dilema entre a vitória e o encanto transcende o futebol. Tem a ver com as dúvidas existenciais do ser humano, dividido entre a razão e a paixão, entre os devaneios individuais e os interesses coletivos, entre a imaginação e o simbólico.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

2 thoughts on “Lembranças e reflexões

  1. QUEM ENTERROU O BRASIL NAQUELE JOGO CONTRA A ITÁLIA FOI O JÚNIOR, VULGO CAPACETE. O MAPA DA MINA FOI ELE E OS ITALIANOS QUE DE BOBOS NÃO TEM NADA, DESBRAVARAM MUITO BEM ESTA AVENIDA. PAOLO ROSSI QUE O DIGA !!!
    A MÍDIA FEZ E FAZ QUESTÃO DE ESCAMOTEAR ESTE NOTÓRIO FATO.

  2. Caro Tostão,

    Não será só o Dunga que nunca entenderá, mas eu também.
    A seleção de 82, a meu ver, foi idêntica ao Palmeiras de 1979, treinada pelo Telê Santana.
    Jogava partidas maravilhosas, encantava, era garantia de jogo bonito, mas quando precisava decidir vacilava.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *