Lembranas oportunas (final)

Carlos Chagas?
?
Na tarde de 31 de maro, consegui localizar Juscelino pelo telefone. Eu trabalhava no “Globo” e tivera a informao de que JK havia estado no palcio das Laranjeiras, com o presidente Joo Goulart. Ele foi seco, do outro lado da linha: “Estive sim, estou chegando agora do Laranjeiras. Mas no me pergunte mais nada porque no vou contar.”
?
Os militares batiam cabea, com a queda de Jango, at que dez dias depois de os tanques terem ido para a rua, os generais decidiram botar ordem na baguna e substituir o Comando Supremo da Revoluo (Costa e Silva, Augusto Rademaker e Francisco de Assis Correia de Melo) pelo general Castelo Branco.
?
Imaginando que as instituies funcionavam, ou fingindo muito bem, Castelo Branco quis ser eleito pelo Congresso. Mesmo com as esquerdas cassadas, votos eram necessrios, e o futuro presidente foi recebido pela direo do PSD, maior partido nacional. Foi na casa do deputado Joaquim Ramos, em Copacabana. L estavam Amaral Peixoto, Jos Maria Alkimin, Negro de Lima, Martins Rodrigues e outros. Juscelino tambm.
?
A conversa seguia amvel, mas tensa, e JK no parava de olhar o relgio de pulso. Seu dilogo com Castelo foi curto. Quis saber se teramos eleies presidenciais no ano seguinte, e o futuro presidente garantiu que sim. Malicioso, ao notar que Juscelino continuava olhando o relgio, comentou: “Senador, percebo que o senhor deve ter outro compromisso. No se prenda por mim, ainda que eu tenha reservado esta noite para dialogar com o PSD”.
?
Por mais estranho que pudesse parecer, Juscelino retirou-se logo depois, para espanto dos companheiros. Na manh seguinte, Negro de Lima telefonou: “Juscelino, voc ficou maluco? Abandonar o todo poderoso general que vai tomar posse amanh! O que voc tinha de to urgente assim?”
?
Resposta: “Uma reunio na casa do Ben Nunes, que ia tocar piano para um grupo de amigos…”
?
Como senador por Gois, JK votou em Castelo Branco, sem perceber que se transformaria na maior vtima do regime de arbtrio. No demorou para que o mandato primeiro general-presidente fosse prorrogado por um ano, sob o argumento de que o pas no poderia viver em 1965 uma convulso eleitoral. A verdade que a impopularidade da chamada Revoluo aumentava dia a dia e todos previam que Juscelino seria eleito por larga margem. Quando da prorrogao, foi alertado de que dificilmente o deixariam ser candidato, mas s acreditou quando, em julho, teve seu mandato cassado e seus direitos polticos suspensos por dez anos. Seu maior algoz foi o ento governador Carlos Lacerda, que tambm se julgava candidato.
?
Avisado por Jos Maria Alkimin de que seria atingido pelo Ato Institucional, veio a Braslia para pronunciar seu ltimo discurso. Contou-me depois que aps o protesto feito pela tribuna, uma das maiores peas de oratria que produziu, deixou o plenrio do Senado pelo corredor central. Rostos se viravam quando passava. Nenhum cumprimento. Desceu com Dona Sarah at o saguo principal do Congresso. A vida soube ser cruel com quem, meses antes, era bajulado aos extremos.?
?
Um apressado retorno do exlio levou-o humilhao de responder a dois Inquritos Policiais Militares, tratado com desdm por coronis e majores, obrigado a passar horas sentado num banquinho, sem direito sequer presena de seu advogado, Sobral Pinto. Logo voltou para Portugal, sendo que no aeroporto do Galeo, pela primeira vez na vida, botou um pequeno revolver na cintura.

O Rioestava cheio de boatos de que no o deixariam embarcar, que o prenderiam na hora. Disse-me que se fosse humilhado, ou se Dona Sarah submetida a violncias, atiraria no primeiro oficial da Aeronutica que surgisse sua frente.Seria morto depois, mas com honra.?
?
O tempo passou, a angstia de JK crescia em progresso geomtrica, longe do Brasil. Pensou em dar fim vida, num Natal passado em Paris s com o fiel coronel Afonso Heliodoro.?
?
No final de 1966 o general Costa e Silva havia imposto sua candidatura ao presidente Castelo Branco, mas as relaes entre eles eram to tensas que o segundo presidente do ciclo revolucionrio entendeu de viajar para o exterior. Fui mandado acompanh-lo, pelo “O Globo”. Lisboa era a primeira parada. No intervalo de uma visita e outra do general a autoridades portuguesas, em companhia do jornalista Washington Novaes, aproveitei para visitar o ex-presidente Juscelino.

Ele tinha escritrio no Chiado, bem defronte Lisboa Antiga. Recebeu-nos emocionado, pediu notcias do Brasil e em dado momento, levou-nos sacada, para ver a vista. Estvamos os trs de frente para a paisagem e a percebi o porqu da iniciativa. Olhando-o de soslaio, vi que chorava.?
?
De noite, no hotel, um daqueles coronis truculentos da comitiva veio tirar satisfaes. Como tnhamos ido conversar com o inimigo da Revoluo? Para falta de sorte dele o general Costa e Silva vinha saindo do elevador e quis saber sobre o que discutamos. Contei sobre a visita e ainda perguntei ao futuro presidente: “Se um dia desses, passeando na rua, o senhor desse de frente com o presidente Juscelino? Faria o qu?”
?
O sempre surpreendente general respondeu, encerrando o assunto: “Nos cumprimentaramos, como todo brasileiro deve fazer com outro brasileiro, quando se encontram no exterior…”?
?
Juscelino acabou voltando ao Brasil, mesmo suspenso em seus direitos polticos, proibido de entrar em Braslia e recebendo os nus de se haver composto com Carlos Lacerda, na estranha Frente Ampla que os reuniu a Joo Goulart numa luta efmera pela volta do pas democracia.
?
O resultado foi a agitao dos radicais e a edio do Ato Institucional nmero 5, o mais hediondo de todos. O presidente era paraninfo de uma turma de formandos, na noite de 13 de dezembro de 1968. Depois de discursar no Teatro Municipal, no Rio, ao sair foi preso, conduzido ao Forte Copacabana, onde permaneceu alguns dias. Horror dos horrores, naquela mesma hora Carlos Lacerda tambm tinha sido detido e conduzido a um quartel da Polcia Militar do Rio de Janeiro. O crcere no deixou sequelas em JK, ao contrrio do antigo desafeto. (final)

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.